Apesar da situação crítica na Síria, relatório da ONU aponta índices de mortalidade e desnutrição surpreendentes dentro de campo de refugiados na Jordânia.

Um pai sírio observa enquanto um turco da equipe médica examina sua filha, que desenvolveu dificuldades na respiração. Foto: ACNUR/A.Branthwaite.
A crise de refugiados, agravada pelo conflito na Síria, está cada vez mais sobrecarregando os serviços de saúde de seus países vizinhos, enquanto os refugiados estão tendo mais dificuldades de acessar o tratamento de qualidade que eles precisam, alerta a Agência para Refugiados das Nações Unidas, em um relatório divulgado nesta sexta-feira (26).
O relatório, que engloba os primeiros três meses de 2013 no Iraque, Jordânia e Líbano, mostra que mais de um milhão de refugiados precisam de tratamentos tanto para condições de saúde comuns quanto para condições causadas pelo conflito, disse Adrian Edwards, porta-voz para o Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), para jornalistas em Genebra.
Edwards disse que, desde quinta-feira (25), 1.401.435 sírios foram registrados como refugiados ou estavam esperando o registro. Isso corresponde a 30% a mais que o total esperado dentro do Plano Regional de Resposta aos Refugiados até o final de junho de 2013 – para o qual 55% do financiamento já foi recebido. Um plano atualizado deve ser apresentado no final de maio.
Quase 2,5 milhões de refugiados
Com quase 2,5 milhões de refugiados sírios em toda a região, o relatório cita duas grandes dificuldades em relação ao sistema de saúde: a primeira é devido ao baixo financiamento para a crise de refugiados, o desafio de prover acesso a um sistema de saúde de qualidade para os refugiados sírios é crescente – especialmente para as pessoas que residem fora dos campos.
A segunda é o aumento do número de pessoas que precisam de cuidados médicos – que está sobrecarregando os serviços de saúde em cada um dos países afetados.
“Ambos os problemas são de suma importância para o ACNUR”, disse Edwards, adicionando: “Nós continuamos com os nossos parceiros, fornecendo o cuidado médico para os refugiados nos campos da Jordânia e Iraque. Mas para aqueles refugiados que residem fora dos campos, muitas vezes em cidades, a situação é mais complicada.”
Em termos da situação de saúde geral dos refugiados sírios, o relatório do ACNUR aponta uma realidade intrigante. Os refugiados sírios não possuem altos índices de mortalidade e desnutrição aguda. A mortalidade no campo de Za’atri, na Jordânia, por exemplo, é de 0.1 a cada mil pessoas por mês, enquanto a desnutrição aguda geral em crianças abaixo dos cinco anos é menos que 5.8% – ambos índices fora do comum para esta região.
“No entanto, serviços preventivos, tratamento de doenças crônicas e tratamentos sofisticados não são oferecidos a um preço que os refugiados – apesar do apoio de governos e agências humanitárias – podem pagar”, disse ele.
Vidas ‘brutalmente interrompidas’
Enquanto isso, numa recepção e um show em Nova York na quinta-feira (25) em prol das crianças sírias, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, lembrou da sua visita ao campo Za’atari em dezembro de 2012. Ele se emocionou ao ver quantas crianças estavam lá, correndo e brincando nas estradas.
Mas mesmo assim, disse ele, era impossível disfarçar que suas vidas foram brutalmente interrompidas. “A maioria havia fugido com suas famílias levando apenas o que podiam carregar. Muitos testemunharam atrocidades inenarráveis.” Quase 2 milhões de crianças estão internamente deslocadas e mais de 600 mil fugiram da Síria como refugiados, adicionou.
Sem previsão para o fim do conflito, o Secretário-Geral pediu ao Conselho de Segurança e aos países da região que chegassem a um acordo que pudesse persuadir a todos a vir para a mesa de negociações. “Nós estamos arriscando que uma geração inteira de crianças cresça traumatizada. As crianças da Síria são nossas crianças. Elas precisam da nossa ajuda.”