‘A crise não acabou’, diz funcionária da ONU sobre Mali e região do Sahel

Chefe da agência de ajuda alimentar da ONU pede apoio à região do Sahel e alerta que ainda não há segurança em muitas das comunidades do norte do Mali.

Crianças deslocadas na capital do Mali, Bamako, comem uma refeição de boas-vindas. Foto: ACNUR/H.Caux

Crianças deslocadas na capital do Mali, Bamako, comem uma refeição de boas-vindas. Foto: ACNUR/H.Caux

A comunidade internacional deve continuar seus esforços para ajudar a alimentar pessoas no Sahel, disse nessa segunda-feira (18) a chefe do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA), após uma visita à região do oeste africano marcada por altos níveis de fome e desnutrição, bem como pelos efeitos do conflito no Mali.

“O Sahel enfrenta uma dupla ameaça: a instabilidade, causada por um conflito que já produziu refugiados, e a fome crônica, causada por ciclos de seca e colheitas pobres. No ano passado, a comunidade internacional ajudou a evitar uma crise no Sahel, mas o nosso trabalho não acabou”, disse a Diretora Executiva do PMA, Ertharin Cousin, em um comunicado à imprensa.

Ela passou cinco dias em Burkina Faso e no Mali – que, juntamente com os Camarões, Chade, Gâmbia, Mauritânia, Níger, Nigéria e Senegal, formam a região do Sahel. No ano passado, a comunidade internacional forneceu 1,2 bilhão de dólares em ajuda para alimentar cerca de 10 milhões de pessoas na região.

Na Burkina Faso, Cousin visitou um campo de refugiados na vila de Mentao para conhecer de perto programas apoiados pelo PMA, por seus doadores e parceiros, visando o desenvolvimento da resiliência das comunidades à seca – incluindo um centro de nutrição local, um programa de alimentação escolar e um projeto de conservação do solo.

Referindo-se a programas que ajudam os agricultores a melhorar seus rendimentos e trazer os seus produtos para os mercados, bem como projetos que criam ativos da comunidade tais como sistemas de irrigação, além de fortalecer a economia local, Cousin disse: “Não é uma questão de ‘se’ haverá uma seca, mas ‘quando’. Se continuarmos com o que começamos no ano passado, podemos realmente construir resiliência no Sahel”.

No Mali, Cousin se reuniu no domingo (17) com pessoas deslocadas em Mopti, uma cidade na região central do país considerada a porta de entrada para o norte. De lá, o PMA está enviando alimentos por vias rodoviária e fluvial a Timbuktu.

“As pessoas ainda estão sofrendo, a crise não acabou. Não há segurança em muitas das comunidades do norte e as pessoas não podem ir para casa. Precisamos continuar prestando apoio para que as crianças possam continuar recebendo ajuda alimentar”, diz Cousin após a visita a Mopti.

O norte do Mali foi ocupado por radicais islâmicos após os combates terem começado, em janeiro de 2012, entre as forças governamentais e os rebeldes tuaregues. Partes da região ainda permanecem sem acesso para os trabalhadores humanitários, informou o PMA.

O conflito desloncou centenas de milhares de pessoas. De acordo com o PMA, Burkina Faso abriga atualmente mais de 47 mil refugiados do Mali. No Níger, o PMA presta assistência alimentar a cerca de 50 mil refugiados, enquanto que na Mauritânia cerca de 74 mil refugiados recebem assistência.

Também nesta segunda-feira (18) em Nova York, o Conselho de Segurança da ONU recebeu informações em uma sessão a portas fechadas sobre o Mali e a região do Sahel como um todo pela Subsecretária-Geral para Assuntos Humanitários e Coordenadora de Socorro de Emergência da ONU, Valerie Amos.

“Continuamos preocupados com a situação dos deslocados [pessoas deslocadas internamente] e refugiados que fugiram do Mali. Estamos também preocupados com a volatilidade da situação de segurança e a necessidade de redobrar os nossos esforços humanitários”, disse Amos a jornalistas após a sessão.