ACNUR: 17 mil refugiados e solicitantes moravam nas áreas mais afetadas por terremoto no Equador

Catástrofe trouxe novos desafios para estrangeiros que tinham fugido para o Equador devido à violência e outros perigos em países como a Colômbia. Família colombiana compartilhou sua história com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

A família de Selmira, que chegou ao Equador há sete anos, ainda se recupera dos efeitos do terremoto do dia 16 abril. Foto: ACNUR / S. Aguilar

A família de Selmira, que chegou ao Equador há sete anos, ainda se recupera dos efeitos do terremoto do dia 16 abril. Foto: ACNUR / S. Aguilar

Em resposta ao terremoto de 7.8 graus de magnitude que atingiu o Equador em abril (16), o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) já enviou 200 toneladas em material de assistência para a população do país.

Aviões enviados pelo organismo internacional entregaram 900 tendas, 61 mil lâmpadas solares, 7.250 lonas plásticas, 50 mil esteiras, 175 rolos plásticos, quase 7 mil kits de cozinha, 18 mil mosquiteiros e 7 mil baldes para água a pessoas afetadas pela tragédia.

A agência da ONU está particularmente preocupada com a situação dos cerca de 17 mil refugiados e solicitantes de refúgio — a maioria deles oriunda da Colômbia — que viviam nas áreas mais atingidas pelo terremoto e seus tremores secundários.

Conheça a história de uma dessas famílias de deslocados que ficaram ainda mais vulneráveis após a catástrofe.

Terremoto é novo temor para refugiados que fugiram da Colômbia

Quando a terra começou a tremer, a jovem Jeannethe*, de 14 anos, estava tomando banho. Assustada, conseguiu sair da casa onde moram ela e outros 14 membros de sua família antes das paredes começarem a cair lentamente.

“Ela foi a que mais se assustou”, conta a avó da menina, Selmira, de 64 anos. “Durante dois dias, não disse nada.”

Como adulta, eu me sinto culpada, porque
aqui estamos expondo as crianças ao medo
que nunca havíamos pensado.
Mas apesar disso, sabemos que não podemos
voltar para nossa região na Colômbia.
É muito perigoso para nós.

Selmira, nascida em Tumaco, na Colômbia, estava em Manta na noite de 16 de abril, visitando seus filhos e netos. Embora more há mais de seis anos na Suécia, essa senhora afro-colombiana conseguia visitar o resto de sua grande família que continua vivendo no Equador.

“A violência que vivemos na Colômbia me fez deixar minha casa e meu país há anos. Viemos ao Equador em busca de paz. Estivemos em Ibarra, em Cuenca. E depois eu, meu marido e cinco dos nossos filhos fomos para a Suécia. Lá vivo em paz. Mas tenho o coração dividido, porque parte de mim está aqui no Equador, junto com minha família.”

“Apesar de tudo que passamos na vida, um terremoto é algo novo e imprevisível. O medo fez com que as crianças começassem a dizer que queriam voltar para a Colômbia”, contou.

“Como adulta, eu me sinto culpada, porque aqui estamos expondo as crianças ao medo que nunca havíamos pensado. Mas apesar disso, sabemos que não podemos voltar para nossa região na Colômbia. É muito perigoso para nós.”

Terremoto obriga refugiados a “começar do zero novamente” e buscar novas fontes de renda

Agora, a família de Selmira se preocupa não apenas com as paredes caídas de sua antiga moradia, mas também com seus meios de subsistência.

Crianças indígenas Kuna deslocadas por conta dos conflitos armados na Colômbia. Foto: ACNUR/ B.Heger

Crianças indígenas Kuna deslocadas por conta dos conflitos armados na Colômbia. Foto: ACNUR/ B.Heger

“Eu trabalhava vendendo água-de-coco no bairro de Tarqui. Depois do terremoto, o bairro ficou arruinado. Dessa forma, mal consigo trabalhar”, relata Jarlín, de 37 anos, um dos filhos de Selmira.

“É muito difícil quando alguém perde sua vida, seu trabalho e os meios para sustentar sua família. Já havia perdido minha terra na Colômbia e, aqui no Equador, conseguimos dias de paz e novas oportunidades. Entretanto, este terremoto, nos obriga mais uma vez a começar do zero.”

Resposta do ACNUR quer dar à população meios para que refugiados e equatorianos reconstruam suas vidas

“Assim como tem feito ao longo de sua história, é importante que o Equador continue sendo solidário com as famílias refugiadas, muitas das quais perderam seus lares”, observa a representante do ACNUR, María Clara Martín.

Como parte do esforço conjunto para a recuperação após o terremoto, o a agência da ONU participa do grupo humanitário de coordenação para meios de subsistência.

O objetivo é contribuir para o desenvolvimento de mecanismos para impulsionar novas formas de autossuficiência econômica nas zonas afetadas pelo terremoto. Assim, tanto os refugiados quanto o restante da população afetada poderão reconstruir seus lares.

Enquanto isso, apesar do medo e do coração dividido, as crianças seguem sendo crianças e brincam ao redor da avó Selmira. Sobem na árvore, contam histórias, imaginam quem são os outros em outros lugares. E a vida segue, esperando que as paredes voltem ao seu lugar.

Por Sonia Aguilar em Manta, no Equador.

*Nomes alterados por motivos de segurança.