ACNUR alerta que mais de 170 mil sírios deixaram Kobane e muitos procuram refúgio no norte do Iraque

Desde a última semana, a região do Curdistão do Iraque recebe entre 150 e 200 refugiados diariamente. Os recém-chegados relatam atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico, entre elas assassinatos massivos e tortura.

Refugiados de Kobane chegando ao campo de refugiados de Gawilan na região do Curdistão no Iraque depois de saírem da Síria por meio da Turquia. Foto: ACNUR/ D. Nahr

Refugiados de Kobane chegando ao campo de refugiados de Gawilan na região do Curdistão no Iraque depois de saírem da Síria por meio da Turquia. Foto: ACNUR/ D. Nahr

Em busca de abrigo e proteção, mais de 170 mil já deixaram a cidade sitiada de Kobane, na Síria, em busca de segurança em outras partes do país e se deslocando para a região do Curdistão do Iraque.

“Estamos vendo um número crescente de curdos sírios de Kobane em um movimento de fuga constante”, disse o porta-voz do Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR), Adrian Edwards, em Genebra. “Na região do Curdistão do Iraque, mais de 1.600 pessoas procuraram refúgio no remoto campo de refugiados de Gawilan, a cerca de 145 quilômetros de Dohuk”, observou Edwards, adicionando que a região tem recebido entre 150 a 200 sírios todos os dias desde a última semana, uma tendência que segundo ele deve se manter.

De acordo com as entrevistas realizadas pelo ACNUR, a maioria dos refugiados teriam ficado entre 10 e 154 dias na Turquia antes de seguir viagem para o Iraque. “A situação está difícil. Pessoas se instalaram em mesquitas lotadas ou, em alguns casos, nas ruas, sem comida ou dinheiro. Muitos dos refugiados foram obrigados a deixar os carros ou gado na fronteira quando entraram na Turquia, e lá decidiram se deslocar para o norte do Iraque, onde se encontram com parentes ou amigos”, disse ele.

Refugiados no campo de Gawilan contaram ao ACNUR sobre os perigos que enfrentaram no início de sua viagem da Síria para a Turquia, em busca de segurança neste país. Há vários relatos de pessoas sendo mortas ou feridas por minas terrestres durante a tentativa de escapar dos ataques do Estado Islâmico (EI) em Kobane. Para entrar na região do Curdistão iraquiano, as pessoas atravessaram pequenos rios. Outros pagam contrabandistas para passar pela fronteira informal de Silopi, perto de Zakho.

Os refugiados também relataram execuções e outras atrocidades cometidas pelos combatentes do EI nas últimas semanas. Um homem disse que tinha fugido de sua aldeia porque os prisioneiros estavam sendo decapitados. Outro contou que foi mantido como prisioneiro após ter sido condenado à morte em um tribunal improvisado dentro de uma escola em Manbij [66 km a sudoeste de Kobane].

Ele disse ao ACNUR que cerca de 400 prisioneiros foram mantidos em escolas – 100 pessoas por sala de aula. Eles eram espancados com cintos de couro cinco vezes ao dia. Também relatou que sete homens condenados foram degolados, e sua própria execução estava marcada para o dia 28 de setembro. No entanto, conseguiu fugir quando a escola onde estava preso foi atingida por bombas. Este homem ainda teme pela segurança de sua esposa e filhos, cujos paradeiros continuam desconhecidos.

Grande maioria de refugiados são mulheres e crianças

Os sírios que chegam ao norte do Iraque estão sendo trazidos pelas forças de segurança curdas ao campo de Gawilan, que foi criado há um ano para abrigar deslocamento do conflito sírio, principalmente vindos de Alepo e Qamishli. O acampamento é mantido pelo governo regional do Curdistão e estava acolhendo cerca de 2.500 pessoas antes do mais recente influxo.

Edwards disse que os recém-chegados recebem itens de abrigo, alimentos e socorro. Uma vez cadastrado, alguns estão partindo para reencontrar com parentes em Erbil ou para procurar trabalho. Aqueles que não têm laços familiares estão se hospedando no campo.

“A grande maioria dos recém-chegados é formada por mulheres e crianças, pois muitos homens ficaram para trás para proteger as casas e defender sua terra”, disse Edwards. “O ACNUR está aumentando os seus programas de ajuda às mulheres e oferece mais aconselhamento psicossocial, que atualmente está disponível apenas uma vez por semana”, acrescentou.

Algumas das pessoas da área de Kobane foram cruzando de volta da Turquia para o nordeste da Síria, perto de Qamishli. Outros 1.750 pessoas se hospedam agora com parentes e amigos em várias cidades da região, na província de Al Hassekah.

“O ACNUR trabalha com equipes voluntárias de comunicação para identificar deslocados recém-chegados e fornecer ajuda. Cerca de 40 a 50 pessoas buscaram abrigo no campo de Newroz, que foi originalmente criado para ajudar os sírios afetados por ondas anteriores de deslocamento e hospeda agora também 3.800 iraquianos yazidis que fugiram de Sinjar em agosto”, observou o porta-voz do ACNUR.

Na Turquia, os funcionários do governo dizem que mais de 172 mil sírios fugindo de Kobane e arredores entraram no país durante as últimas semanas. Enquanto a grande maioria deles fugiu nos primeiros dias da jornada, um fluxo constante (até 570 chegadas por dia) atravessa a fronteira na região de Yumurtalik.

Muitos dos refugiados estão ficando em comunidades locais e as agências governamentais e humanitárias trabalham com líderes de aldeias para distribuir ajuda aos refugiados e famílias anfitriãs. Outros refugiados estão hospedados em vários abrigos coletivos gerenciados por autoridades turcas, como escolas, mercados, centros esportivos, salões de festas, mesquitas e outros abrigos.