ACNUR: América Latina e Caribe avançam na erradicação da apatridia

Agência da ONU para Refugiados calcula que, no mundo, existam 10 milhões de pessoas sem nacionalidade, enfrentando diferentes riscos por conta desse status. ACNUR elogiou esforços regionais em adaptar legislações e facilitar naturalização de apátridas.

Mulheres e crianças da comunidade indígena Ngöbe Buglé, na Costa Rica. Foto: ACNUR / L. Iturriza

Mulheres e crianças da comunidade indígena Ngöbe Buglé, na Costa Rica. Foto: ACNUR / L. Iturriza

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) destacou na quarta-feira (4) uma série de avanços recentes que países da América Latina e Caribe têm obtido no combate à apatridia – condição em que pessoas não possuem uma nacionalidade, enfrentando diferentes riscos por conta desse status.

Atualmente, o ACNUR estima que existam cerca de 10 milhões de pessoas apátridas no mundo, das quais mais de um terço são crianças.

A região latino-americana e caribenha lidera a taxa de adesão às convenções internacionais sobre a apatridia. Desde 2011, das 49 adesões registradas no mundo, 16 correspondem a países da América (32%).

Desde 2014, Argentina, Belize, Colômbia, El Salvador, Paraguai e Peru adotaram normativas internacionais, como a Convenção relativa ao Estatuto dos Apátridas, de 1954, em alguns casos ou a Convenção para a Redução dos Casos de Apatridia de 1961.

Facilitação da naturalização é tendência na região

Na Bolívia, uma resolução aprovada pelo Ministério do Governo criou um procedimento especial para remover a obrigação de comprovar um período mínimo de residência, reduzindo significativamente os custos para que um apátrida adquira a nacionalidade do país.

No Brasil, uma nova lei de migração está sendo debatida nos órgãos legislativos e com a sociedade civil. O ACNUR espera que a nova legislação inclua, nos mecanismos legais existentes e propostos, um procedimento administrativo de determinação da condição de apátrida.

Na Costa Risca, o governo estabeleceu, há duas semanas, que a apatridia é um modo de vida inapropriado e aprovou um decreto que regulamenta os direitos dos apátridas, definindo um procedimento para determinar essa condição.

Como parte de um compromisso para evitar a subnotificação de nascimentos, confirmar a cidadania e fornecer a documentação de nacionalidade para as pessoas que têm direito a ela, o Supremo Tribunal Eleitoral da Costa Rica e o ACNUR têm mobilizado equipes em todo o país para identificar famílias e crianças indígenas.

Atividades binacionais com setores parceiros no Panamá também têm sido realizadas. A cooperação entre a agência da ONU e as duas nações teve início ao final de 2014. Desde então, cerca de 5 mil indivíduos – a maioria da comunidade indígena Ngöbe Buglé – receberam assistência para se registrar e obter documentos de nacionalidade.

A parceria dos países considera que a emissão de certidões de nascimento é fundamental para a prevenção da apatridia. Sem o registro, é difícil adquirir um documento de identificação e, consequentemente, ter seus direitos fundamentais, como saúde, educação, direitos de propriedade e de acesso ao mercado de trabalho, entre outros, garantidos.

Além dessas iniciativas, Chile e Colômbia mudaram seus regulamentos administrativos para limitar as exceções que se aplicavam à aquisição automática da nacionalidade por nascimento. As alterações facilitaram a aquisição da nacionalidade no momento em que a criança nasce.

Esforços regionais fortalecem campanha global do ACNUR

Organismos regionais têm se articulado para criar regulações e orientar Estados latino-americanos e caribenhos. É o caso da Comissão Interamericana e a Corte Interamericana de Direitos Humanos que já definiram padrões regionais – confirmando que a recuperação da nacionalidade é a solução ideal para os casos de privação arbitrária da nacionalidade.

A América Latina e o Caribe também são as primeiras regiões que apoiam a chamada do ACNUR para erradicar a apatridia em escala global até 2024. Essas regiões também têm incentivado constantemente a campanha global do ACNUR para erradicar a apatridia através da adoção do Plano de Ação do Brasil de 2014 – único ponto estratégico regional para estabelecer normas de proteção internacional.