ACNUR apresenta em São Paulo soluções para problemas enfrentados por refugiados no Brasil e no mundo

Agência da ONU para Refugiados investe em parcerias e inovação tecnológica para ajudar refugiados em diferentes situações, desde a estadia em campos para deslocados até chegada e adaptação em países de acolhida.

Unidade de Inovação do ACNUR busca soluções para problemas enfrentadas por refugiados em diferentes partes do mundo. Acesso a habitação adequada, eletricidade e informaçõa é uma das preocupações dos projetos. Foto: ACNUR / J. Kohler

Unidade de Inovação do ACNUR busca soluções para problemas enfrentadas por refugiados em diferentes partes do mundo. Acesso a habitação adequada, eletricidade e informaçõa é uma das preocupações dos projetos. Foto: ACNUR / J. Kohler

Inovações tecnológicas têm contribuído para resolver os problemas enfrentados por refugiados, seja por meio de um aplicativo para que o recém-chegado localize serviços importantes na cidade de acolhida, seja através de um banco de dados de voluntários que podem acompanhá-los em consultas médicas.

No último domingo (14), a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) apresentou alguns dos seus projetos inovadores no Festival Path – evento multidisciplinar sobre novas tecnologias, criatividade e tendências de ponta no Brasil, organizado pela empresa Panda Criativo e realizado em São Paulo.

Durante o painel “O Mundo em Refúgio: Inovar para Integrar”, o assistente de Proteção do ACNUR, Vinícius Feitosa, apresentou estatísticas que surpreenderam o público: o Brasil recebeu 28.670 pedidos de asilo em 2015 e acolhe quase 9 mil refugiados já reconhecidos. No entanto, a população de deslocados acolhida aqui é muito inferior a de outros países.

“Só no Líbano, cujo território corresponde à metade da área do estado de Sergipe, há mais de 1 milhão de refugiados. Não procede o argumento da invasão do Brasil por refugiados”, afirmou o representante da agência das Nações Unidas.

Em 2014, o ACNUR criou a Unidade de Inovação, que funciona como um polo de soluções inovadoras para problemas levantados pela própria população de refugiados em diferentes partes do mundo.

Um dos projetos apoiados pela iniciativa conta com a parceria da Fundação IKEA e propõe o desenvolvimento de um novo modelo de tendas leves e tecnológicas com 17,5 metros quadrados. A estrutura pode ser montada e desmontada rapidamente durante o atendimento a emergências humanitárias.

As tendas foram criadas com base nas queixas de indivíduos deslocados que queriam melhorias em suas condições básicas de vida, privacidade e segurança. As armações oferecem, inclusive, acesso a carregadores de celulares a partir da energia solar. O projeto e a fabricação das habitações estão sob os cuidados da organização Better Shelter.

“O trabalho de inovação do ACNUR tem como princípio a demanda real do refugiado. Queremos que qualquer criação esteja completamente baseada em suas realidades”, explicou Feitosa.

O conceito de refúgio está associado ao da resiliência, explicou o funcionário do ACNUR. Muitos refugiados são desafiados a se adaptar rapidamente à cultura, ao idioma e às especificidades de um novo país.

No Brasil, o ACNUR firmou um acordo com a empresa EMDOC para criar o Programa de Apoio para Recolocação dos Refugiados (PARR). Também concebeu o projeto #Meu Olhar, que busca empoderar crianças por meio da fotografia para que elas expressem sua visão sobre o processo de integração no Brasil. Esta iniciativa é realizada em parceria com a organização não-governamental “I Know My Rights” e com o apoio do Studio Pier 88.

Com o projeto #MeuOlhar, estas seis crianças refugiadas de diferentes nacionalidades usaram a fotografia para mostrar como é viver em São Paulo, a maior metrópole brasileira. Foto: Studio Pier 88 / Rodrigo Bueno

Com o projeto #MeuOlhar, estas seis crianças refugiadas de diferentes nacionalidades usaram a fotografia para mostrar como é viver em São Paulo, a maior metrópole brasileira. Foto: Studio Pier 88 / Rodrigo Bueno

Outro modelo brasileiro de empreendedorismo social voltado para a área do refúgio foi criado pelo argentino Jonathan Berezovsky, fundador da organização Migraflix e um dos palestrantes do painel no Festival Path.

O Migraflix promove workshops com refugiados de diferentes origens — o que permite criar empatia entre brasileiros e esses estrangeiros por meio do ensino da cultura e de seus hábitos, e não a partir da visão sobre a guerra.

“O objetivo é também gerar renda a partir dos talentos que os imigrantes compartilham com os locais que pagam pelo workshop. Nesse processo intercultural, os dois lados saem ganhando”, disse Berezovsky.

O refugiado sírio Talal al-Tinawe, que também participou do painel, é um dos usuários do Migraflix. Há dois anos no Brasil, esse engenheiro mecânico atualmente dirige seu restaurante recém-inaugurado em São Paulo, fruto de uma campanha online de crowdfunding.

Al-Talawi, Feitosa e Berezovsky debateram inovações para melhorar a vida dos refugiados. Foto: ACNUR / D. Chrispim

Al-Talawi, Feitosa e Berezovsky debateram inovações para melhorar a vida dos refugiados. Foto: ACNUR / D. Chrispim

Como forma de mobilizar a audiência e interessados sobre o tema, o ACNUR apoia também a competição internacional “What Design Can Do”, com o objetivo de financiar ideias criativas para melhorar as condições de vidas dos refugiados.

No Brasil, a agência dá suporte ainda à realização de um hackaton que será realizado nos dias 25 e 26 de junho pelo Migraflix, com o apoio também da Impact Hub. O evento quer acelerar a busca por soluções inovadoras para os problemas enfrentados por refugiados e outros grupos de imigrantes que moram no Brasil. Saiba mais sobre o hackaton aqui.

Por Denise Chrispim, de São Paulo.