Data celebrada na última segunda-feira (20) contou com inauguração da exposição “Vidas Refugiadas” no Museu Nacional da República, debates sobre refúgio e migração, feira cultural e gastronômica, apresentações de dança e filmes.

Museu Nacional da República recebeu exposição “Vidas Refugiadas” e foi iluminado com imagens da campanha do ACNUR , #ComOsRefugiados. Foto: Luiz Fernando Godinho
Filmes, artesanato, dança, culinária, fotografia, projeções ao ar livre, debates, música. Foi através de uma diversidade de linguagens artísticas e culturais que a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) celebrou o Dia Mundial do Refugiado — comemorado na segunda-feira (20) e com outras atividades ao longo da semana passada organizadas pelo organismo das Nações Unidas — em Brasília.
Na véspera da data internacional, refugiados e imigrantes que visitaram o Cine Brasília foram protagonistas da iniciativa Cine MigrArte. O evento permitiu aos participantes imergir nas culturas de diferentes países que já fazem parte da realidade de quem vive na capital federal.
Após a abertura realizada pelo projeto Akwaba — que mostrou um pouco da variedade de ritmos e danças de Gana —, a nova representante do ACNUR no Brasil, Isabel Marquez, disse ser “uma honra e um privilégio estar no Brasil e sentir aqui a energia dos irmãos africanos, continente em que trabalhei por 20 anos”.

Visitantes conheceram a exposição “Vidas Refugiadas”, que foi inaugurada na segunda-feira (20) e segue em cartaz no Museu Nacional de Brasília. Foto: ACNUR / L. F. Godinho
“É com muito apreço que saúdo os refugiados e refugiadas de diferentes nacionalidades e que encontram no Brasil uma forma de reconstruir suas vidas com dignidade e respeito.”
Na sala de cinema, aconteceram projeções de curtas do Festival do Minuto — que teve como tema, em 2016, a situação dos refugiados no mundo. O encontro contou também com o lançamento do documentário “A Linguagem do Coração”, de Silvana Nuti, e a exibição da animação “Morte e Vida Severina”, de Afonso Serpa.
O saguão do tradicional cinema de Brasília foi ocupado ainda pela feira cultural “Sabores do Mundo”, onde os visitantes puderam conhecer mais sobre tecidos africanos, artesanatos de El Salvador e, logicamente, degustar pratos típicos da Síria e do Paquistão.
Refugiado ou imigrante, negro ou homossexual,
não representam grupos à parte da sociedade
e ao mesmo tempo não são homogêneos em si,
mas devem sim ter seus direitos respeitados.
“Há dois anos moro no Brasil e gosto muito de ver que as pessoas se interessam por aquilo que eu cozinho”, disse Sayd, de 33 anos, refugiado do Paquistão. Ele e um amigo brasileiro vendiam rotí, um típico sanduíche que Sayd aprendeu a fazer com a mãe.
“O segredo não está nos ingredientes, mas sim na forma de preparar a massa que nada mais tem além de água e farinha”, explicou. Foram mais de 130 rotís vendidos, sem que o refugiado comesse nenhum, pois está de jejum durante o Ramadã.
Para fechar o evento, um debate reuniu especialistas sobre a temática do refúgio e migrações, desconstruindo tabus que frequentemente são postados nas redes sociais.
Na opinião do professor e pesquisador da Universidade de Brasília, Leonardo Cavalcanti, “refugiado ou imigrante, negro ou homossexual, não representam grupos à parte da sociedade e ao mesmo tempo não são homogêneos em si, mas devem sim ter seus direitos respeitados”.
O defensor público federal, Eduardo Nunes de Queiroz, disse ser importante lembrar “que os refugiados contribuem culturalmente, socialmente e economicamente para o país, dispostos a enriquecer de diferentes formas nossa sociedade”.

Especialistas debateram posts coletados em redes sociais sobre migrantes e refugiados. Foto: ACNUR / F. Faria
Já no Dia do Refugiado (20), o Museu Nacional da República do Distrito Federal recebeu a inauguração da exposição fotográfica “Vidas Refugiadas”.
A mostra leva ao público uma oportunidade de reflexão sobre a adaptação de mulheres refugiadas à vida no Brasil, com um recorte de gênero que revela as necessidades, os dilemas e as conquistas de oito mulheres fotografadas, provenientes de sete diferentes países: Nigéria, Cuba, Síria, República Democrática do Congo, Angola e Burkina Faso.
Durante a abertura, um debate contou com a participação da representante do ACNUR, Isabel Marquez, da coordenadora-geral Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), Maria Beatriz Nogueira, e de duas solicitantes de refúgio que estão retratadas na exposição: a nigeriana Nkechinyere Jonathan e a cubana Maria Iglesias.
Maria é jornalista e historiadora, tem 51 anos e foi forçada a deixar seu país, pois devido à sua profissão passou a ser perseguida pelas forças policiais do país. A repórter é autora do livro “Africanidades”, que será divulgado na Feira do Livro de Brasília, em julho.
Para ela, “o refugiado pode ser qualquer pessoa e deve ser olhado como alguém não somente com direito à vida, mas a uma vida digna, pois quando chega a um outro país procura estabelecer uma relação de troca e não de dependência”.

Museu Nacional da República foi iluminado com símbolo do ACNUR durante inauguração da exposição “Vidas Refugiadas”. Foto: ACNUR
Jonathan é casada, mãe de quatro filhos, mas vive só no Brasil. A refugiada teve que deixar seu país, sua família e sua vida como professora na Nigéria por conta de ameaças do grupo extremista Boko Haram. Os terroristas sequestraram suas alunas, fecharam sua escola e mataram professores que lecionavam com ela.
Além de ter sido fotografada para a exposição, Jonathan é também uma das refugiadas que aparece no site www.diadorefugiado.org, criado pelo ACNUR em comemoração ao Dia Mundial do Refugiado. As artes desta campanha foram projetadas na parte externa do museu durante a noite do dia 20 como forma de dar ainda mais visibilidade para a data.
O número sem precedentes de mais de 65 milhões de solicitantes de refúgio, refugiados e deslocados internos pelo mundo é um reflexo das histórias de vida de pessoas que, para escapar da violência, deixaram tudo para trás – tudo, exceto a esperança e o sonho de um futuro mais seguro e digno.
A exposição “Vidas Refugiadas” fica em cartaz no Museu Nacional de Brasília/Museu Nacional da República até o dia 24 de julho, podendo ser visitada de terça a domingo, entre 9h e 18h30.
Por Miguel Pachioni, de Brasília.