Regiões de Borno, no nordeste da Nigéria, foram recentemente libertas do domínio do grupo extremista, mas continuam devastadas e sem infraestrutura. Deslocados internos que voltam aos seus locais de origem estão sem acesso a serviços e itens de consumo básicos. Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) tem levado assistência, mas alerta para falta de informação e de coordenação entre organismos humanitários.

Nigerianos que retornam a locais anteriormente tomados pelo Boko Haram encontram suas casas destruídas. Foto tirada em Garaha, em maio de 2016. Foto: ACNUR / George Osodi
Áreas recentemente libertas do domínio do Boko Haram em Borno, nordeste da Nigéria, estão recebendo milhares de deslocados internos que desejam voltar aos seus lares. A devastação das regiões, porém, coloca a população em novas situações de vulnerabilidade. Sem infraestrutura e moradia adequadas, o retorno não significa o fim da insegurança.
O alerta é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), que informou na segunda-feira (26) ter acesso restrito a dez distritos de Borno, tomados anteriormente pelos militantes extremistas, que abrigam 800 mil pessoas em necessidade de assistência humanitária.
Outras seis localidades foram liberadas por investidas militares do governo e cooperações com forças armadas de outros países, mas as Nações Unidas ainda não puderam retornar para avaliar a conjuntura.
“Dados completos não estão disponíveis, mas nossa equipe de campo e parceiros relatam o retorno espontâneo e também facilitado pelo governo nos últimos dias de centenas de pessoas para áreas como Mafa, Konduga, Benisheikh e Dikwa”, disse o porta-voz do ACNUR, Leo Dobbs.
Segundo o representante da agência, parte dos nigerianos que voltam para casa, vindos principalmente da capital de Borno, Maiduguri, parecem estar felizes. Relatos recebidos por profissionais humanitários mencionam as terríveis condições nos lugares onde os deslocados internos estavam vivendo, incluindo campos para essas populações.
No entanto, a escassez de serviços e recursos nas áreas reconquistadas pelo Estado ameaçam o bem-estar dos retornados. “Os retornos devem ser voluntários, dignos e seguros. As pessoas deveriam ser informadas sobre as condições de suas áreas de origem”, acrescentou o representante da agência da ONU.
“Nós precisamos de tudo”, ressalta Saeed, um dos milhares de nigerianos que vive em Gwoza, cidade a 40 quilômetros da fronteira com Camarões e que foi libertada pelas forças do governo em março.
“A comida é um problema. Nós somos agricultores, mas devido a insegurança que continua prevalecendo nos arredores de Gwoza e em outras cidades, ainda não podemos plantar em nossos terrenos”, explicou. O lugar onde mora fica a 150 quilômetros de Maiduguri.
ACNUR em ação
No terreno, o ACNUR continua trabalhando com parceiros locais para garantir o monitoramento da situação de deslocados internos em Bama, Monguno, Damboa, Konduga, Mafa, Dikwa, além dos distritos de Biu, Bayo, Hawul, Shani e Kwaya Kusar, ao sul de Borno.
Em Bama, a Agência das Nações Unidas já forneceu 200 abrigos para mil pessoas e, nas duas últimas semanas, levou assistência para 16 mil pessoas. A ajuda incluiu 10 mil itens distribuídos na cidade de Banki, na fronteira entre Camarões e Nigéria.
“Grande parte dos deslocados são mulheres, crianças e idosos. As questões prioritárias com as quais o ACNUR e seus parceiros estão trabalhando incluem abrigo, alimentação, fornecimento de água potável e itens de saúde, incluindo a prevenção de desnutrição e de cólera”, informou Dobbs.
O representante da agência explicou ainda que “questões de proteção incluem violência sexual e de gênero, das quais temos tido sucesso por meio da atuação de grupos comunitários de proteção que encorajam o diálogo e a conscientização”.

Um grupo de mulheres caminha em frente às ruínas do antigo palácio do Emir em Gwoza, Nigéria. Foto: ACNUR / Hélène Caux
Em Maiduguri, o ACNUR construiu quase 2 mil abrigos semi-permanentes para cerca de 10 mil pessoas. Em Dikwa, estão sendo montadas moradias de emergência para 5 mil indivíduos.
“O ACNUR está em contato regular com as autoridades e aumentamos nossas preocupações, oferecendo-nos a trabalhar de maneira próxima com elas para garantir que os retornos aconteçam de acordo com as normas internacionais, garantindo suas respectivas dignidades e seguranças”, disse o porta-voz.
Para o organismo internacional, “uma maior resposta humanitária e presença na área é urgentemente necessária”. Isso implica ampliar a coordenação entre agências e melhorar a coleta de dados.
Desde 2014, a insurgência do Boko Haram forçou mais de 2,25 milhões de pessoas a abandonar seus locais de origem e a fugir para outras regiões da Nigéria ou mesmo outros países. Cerca de 190 mil desse contingente de deslocados atravessou fronteiras nacionais rumo a Camarões, Níger e Chade.
A ameaça do grupo permanece, pois apesar dos avanços na reconquista territorial, ataques terroristas orquestrados pelos extremistas ainda são fonte de instabilidade na nação nigeriana.