Crise na Líbia muda rota de muitos dos migrantes e refugiados que buscam segurança na Europa. Saindo do Egito, a viagem pode durar até 16 dias, aumentando o risco para as pessoas.
Até o momento, em 2016, quase 188 mil refugiados e migrantes chegaram à Europa por mar, incluindo 155 mil na Grécia e 31 mil na Itália. Agência da ONU para Refugiados voltou a defender vias legais para que os refugiados cheguem à Europa por meios seguros.
A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) disse nesta sexta-feira (13) que quase 1 mil pessoas de várias nacionalidades foram resgatadas nos últimos dias no Mar Mediterrâneo. Entre elas, estava, muitas crianças desacompanhadas.
Dois barcos de pesca que vinham do Egito traziam cerca de 500 pessoas que foram resgatadas na costa da Sicília. Apesar das medidas restritivas, as pessoas continuam buscando segurança na Europa, destacou a agência. A Líbia já foi o principal ponto de partida, mas o conflito no país levou refugiados e migrantes a buscar rotas mais seguras.
“Nas últimas semanas, temos visto cada vez mais barcos que vêm do Egito em direção à Itália. Estamos preocupados com isso. Estes são grandes barcos de pesca que podem trazer mais de 300 ou 400 pessoas e o percurso é muito longo, a viagem é muito longa, pode levar de 10 a 16 dias”, disse Carlotta Sami, porta-voz do ACNUR.
Um dos refugiados que vieram do Egito é Ali. Junto com sua esposa, ele fugiu da guerra em curso no Iêmen, deixando seus dois filhos para trás. Foram ao Egito e, depois, para o barco, sabendo que não poderiam fazê-lo.
“Eu preferiria morrer antes de eles morrerem. Como eles poderiam morrer? São crianças. Se uma pessoa morre, pelo menos é apenas uma pessoa. É assim que eu vi”, disse Ali.
Ele deixou seus filhos com sua irmã, escondidos em uma região montanhosa no Iêmen. Ele disse que os deixou seus desejos finais. “Deixei meus filhos um desejo, eu os escrevi. Eu disse a eles: se eu morrer, há coisas na vida que vocês devem fazer. É o meu único desejo: vocês devem aprender e estudar.”
Depois de alcançar a segurança, Ali agora está buscando asilo na Europa. Ele espera abrir uma loja e reunir sua família.
Até o momento, em 2016, quase 188 mil refugiados e migrantes chegaram à Europa por mar, incluindo 155 mil na Grécia e 31 mil na Itália.

Crianças perto de suas tendas em Idomeni, Grécia, em março de 2016. Foto: UNICEF / Tomislav Georgiev
“O ACNUR continua a defender as vias legais, para que os refugiados cheguem à Europa por meios seguros”, destacou o porta-voz do ACNUR em Genebra, William Spindler.
Entra as opções estão os programas de reassentamento e de admissão humanitária, reunião familiar, patrocínio privado, programas humanitários de estudo ou vistos de trabalho, entre outros, relatou. “Esta é a única forma de ajudar a pôr fim ao contrabando de seres humanos”, acrescentou Spindler.
Na última terça-feira (10), o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, escreveu um artigo na rede social LinkedIn destacando um relatório recentemente lançado que apresenta soluções para a questão. Ele também comentou o apoio que a própria população pode dar.
“Todos nós temos um papel a desempenhar no reforço da nossa humanidade comum. Não importa onde você mora, você pode ajudar se colocando contra a retórica de ódio e os estereótipos nocivos em relação aos refugiados e migrantes – em sua comunidade, no trabalho ou na escola”, destacou.
Acompanhe o tema na página especial da ONU Brasil, na página do ACNUR ou no site especial da ONU (refugeesmigrants.un.org).
UNICEF pede mais proteção para crianças
Em meio a negociações na União Europeia (UE) sobre as regras que regem os pedidos de pessoas que procuram proteção na Europa, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) já havia feito um forte apelo no início de maio para que sejam resguardados os interesses e direitos das crianças, que segundo a agência devem receber prioridade.
Uma reforma no bloco europeu pode ampliar para até 11 meses o tempo entre a chegada de uma criança e sua transferência ao país que irá considerar um pedido. Tal processo demorado pode dificultar a reunificação familiar e expor as crianças a diversos riscos, alertou o UNICEF, que recomendou um prazo máximo de três meses.
A agência da ONU também pediu mais recursos e profissionais para assegurar que os guardiões das crianças sejam nomeados imediatamente e as protejam de forma adequada, dando orientação e apoio às criança desacompanhadas ou separadas.
O UNICEF pediu ainda alternativas comunitárias à detenção: a agência da ONU alertou que nenhuma criança deve ser detida enquanto se aguarda a sua transferência para outro país. O Fundo pediu o uso de alternativas comunitárias, não privativas de liberdade, para as crianças e suas famílias que reivindicam proteção internacional.
A crise de refugiados e de migração tem sobrecarregado o sistema de asilo da Europa. O UNICEF tem alertado que está em debate o destino de mais de 400 mil crianças que pediram asilo na Europa entre janeiro e novembro de 2015.
As novas regras determinarão qual o Estado-membro responsável pela análise de um pedido de proteção internacional que tenha sido apresentado em qualquer local do bloco europeu.
“Essas discussões são uma oportunidade para fortalecer as salvaguardas vitais que as crianças que procuram asilo na Europa têm, sob o direito internacional”, disse Noala Skinner, diretora do UNICEF em Bruxelas. “Para que o sistema de asilo comum da Europa seja humano, justo e eficiente, a proteção das crianças deve ser uma prioridade central.”
(Imagem de capa do vídeo: Um jovem refugiado sírio leva seu irmão em Idomeni, Grécia, próximo à fronteira com a Macedônia. Foto: ACNUR/Andrew McConnell)