ACNUR: No Paraná, centro de acolhimento vai receber refugiados vítimas de perseguição religiosa

“Cidade de Refúgio” está sendo construída em uma área de 250 mil metros quadrados na região metropolitana de Curitiba. Refugiados que buscarem o centro poderão morar no local por até quatro meses. Estrangeiros receberão assistência para conseguir se integrar à sociedade brasileira. Projeto vai viabilizar ainda a inserção socioeconômica dos refugiados após o término da estadia.

Brasil também tem sido destino de refugiados que deixam a Síria por conta do conflito que já dura mais de cinco anos. A nação em guerra foi apontada como uma das que registra níveis preocupantes de perseguição religiosa. Nesta foto, mãe e filha em Barja, no Líbano, preparam as malas para seu reassentamento na Alemanha. Foto: ACNUR/Andrew McConnell

Brasil também tem sido destino de refugiados que deixam a Síria por conta do conflito que já dura mais de cinco anos. A nação em guerra foi apontada como uma das que registra níveis preocupantes de perseguição religiosa. Nesta foto, mãe e filha em Barja, no Líbano, preparam as malas para seu reassentamento na Alemanha. Foto: ACNUR/Andrew McConnell

O Brasil terá, em breve, um abrigo exclusivo para acolher refugiados que foram vítimas de perseguição religiosa. A “Cidade de Refúgio” – projeto idealizado pela organização não governamental Mais – está sendo construída na região metropolitana de Curitiba, no Paraná, em uma área de 250 mil metros quadrados, com capacidade para receber 150 refugiados por vez.

Um relatório da Comissão Internacional de Liberdade Religiosa dos Estados Unidos avaliou 33 países e revelou que violações de direitos humanos devido a práticas religiosas acontecem de forma mais sistemática em 27 das nações analisadas. A pesquisa chama atenção para as conjunturas mais graves, verificadas no Iraque, Síria, Nigéria, República Centro-Africana e Mianmar.

Segundo o diretor da “Cidade de Refúgio”, Weston Lee Rayborn, o centro de acolhimento receberá refugiados da África, da Ásia e do Oriente Médio. Os estrangeiros poderão permanecer no local por um período de dois a quatro meses. A expectativa é de que o projeto comece a funcionar já a partir de maio.

“Queremos ser uma referência na acolhida de pessoas que são vítimas de perseguição religiosa. Entendemos que esse projeto é uma porta para uma nova fase da vida deles”, explicou Rayborn.

Para o diretor, o Brasil é um bom lugar para recomeçar. “É um país relativamente seguro, se compararmos com as áreas de onde esses refugiados vêm. Além disso, há liberdade religiosa”, disse.

Caso o projeto seja procurado por vítimas de outros tipos de perseguição – que não a religiosa –, estas pessoas serão encaminhadas para instituições parceiras.

Durante a permanência na “Cidade de Refúgio”, o refugiado passará por duas fases de acolhimento. No período de convivência inicial, ele receberá assistência para obter sua documentação e também informações sobre a vida no Brasil. Em seguida, no momento de inserção, serão procuradas formas de viabilizar a integração socioeconômica do refugiado na sociedade.

O projeto ficará responsável pelas despesas do refugiado enquanto ele estiver vivendo na “Cidade de Refúgio”. Antes de o prazo de permanência terminar, a iniciativa buscará instituições ou mesmo indivíduos que possam assumir os custos dele por até um ano após sua saída da Cidade.

Rayborn ressalta que, além de igrejas e cidadãos, diferentes organizações serão consideradas e solicitadas para tornar possível essa transição financeira do refugiado, que vai tentar se inserir no mercado.

Diferente de outros ambientes de acolhida para refugiados, a “Cidade de Refúgio” contará com moradias pré-moldadas, destinadas a cada núcleo familiar, e um centro comunitário, onde ocorrerão aulas de português e sobre a cultura brasileira.

O espaço também terá um ambiente terapêutico para fornecer assistência médica e odontológica, além de áreas para horta e piscicultura. Nesses locais, terapias ocupacionais serão desenvolvidas por meio do trabalho manual e em meio à natureza.

O representante interino da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) no Brasil, Agni Castro-Pita, parabenizou a iniciativa que “viabiliza a acolhida e abrigo de refugiados e, mais que isso, possibilita aos refugiados reconstruir suas vidas com segurança e dignidade”.

Para Rayborn, estimular o refugiado a ter contato com a natureza é uma maneira de ele “melhorar o seu interior”, além de ser mais uma possibilidade de ocupação do seu tempo. O diretor do projeto ressaltou o cuidado que a iniciativa está tendo para que essas atividades manuais não caracterizem trabalho forçado.

“Haverá um profissional específico para cuidar da horta e da piscicultura. O refugiado que se interesse por estas atividades poderá interagir com este profissional e ajudar. Todos os produtos cultivados serão consumidos pelos moradores da Cidade, uma vez que queremos que ela seja autossustentável”, afirmou.

A “Cidade de Refúgio” terá com uma equipe fixa de profissionais que já estão no local, acompanhando o desenvolvimento de cada detalhe. São advogados, assistentes sociais, engenheiros, motoristas, professores e psicólogos.

Construção voluntária

Movidos pela causa, profissionais especializados, como engenheiros e pedreiros, estão trabalhando como voluntários na construção da “Cidade de Refúgio”. Além dos especialistas, trabalhadores de outras áreas contribuem em serviços diversos, como a pintura das paredes internas das casas.

A ONG Mais também está recebendo contribuições na forma de roupas de inverno, cobertores, roupas de cama e produtos de higiene pessoal. Devido às baixas temperaturas na região de Curitiba, o espaço está se preparando para melhor acolher os refugiados.

Por Michele Bravos, de Curitiba.