Refugiados de diferentes idades e nacionalidades agora têm uma nova opção de lazer, de deslocamento para a escola ou trabalho e para conhecer os espaços do Distrito Federal. Iniciativa quer promover integração dos refugiados aos lugares onde vivem no Brasil.

Refugiados e refugiadas de diferentes idades e nacionalidades se juntam para foto com as bicicletas que ganharam no evento. Foto: ACNUR / L. F. Godinho
O jovem Yousaf, de 14 anos, aprendeu a andar de bicicleta ainda no Paquistão, seu país de origem. Há dois anos, ele, sua mãe e seus dois irmãos chegaram ao Brasil para reencontrar seu pai, que já vivia no país como refugiado. Yousaf e sua família, que hoje vivem em Brasília, deixaram muitos amigos e pertences para trás – inclusive a bicicleta que ele utilizava diariamente, tanto para ir à escola, como para ajudar com tarefas domésticas.
Na tarde do último domingo (10), Yousaf voltou a sentir a gostosa sensação de pedalar. Ele e outros 33 refugiados e refugiadas de diferentes nacionalidades e idades foram beneficiados por uma doação de bicicletas, viabilizada pela organização não governamental Rodas da Paz, durante evento que celebrou o Dia das Boas Ações na capital federal.
“Eu pedi uma bicicleta para ir à escola e, nos finais de semana, pedalar pelos parques de Brasília com meus amigos. Gosto muito do Brasil, da minha escola, de passear por aqui e gostaria de me tornar um engenheiro aqui no Brasil”, disse Yousaf que, logo após receber sua bicicleta, saiu pedalando pelo Parque da Cidade, local onde aconteceram as atividades comemorativas da data.
A doação das bicicletas foi realizada por meio do projeto “Doe Bicicleta”, que há mais de 10 anos recupera bicicletas sem uso e as repassa para novos ciclistas. De acordo com o coordenador da iniciativa e conselheiro da Rodas da Paz, Raphael Dornelios, o projeto permite que “a bicicleta se transforme em uma ferramenta de inclusão, propiciando o acesso a direitos”.
Outro refugiado beneficiado pela doação é o sírio Ammar Abou Nabout, de 41 anos. Ele mora com sua família em Brasília há quase dois anos e garante que a receptividade e a solidariedade do povo brasileiro contribuíram para suas conquistas: ele é empresário e gerencia seu próprio restaurante na Asa Sul de Brasília, oferecendo pratos típicos da culinária síria junto com sua mulher e uma funcionária brasileira.
A bicicleta que ele recebeu será usada por sua esposa para levar e buscar os filhos na escola onde eles estudam – além de facilitar idas e vindas ao supermercado para comprar mantimentos para o restaurante.
“Os brasileiros ajudam muito aos estrangeiros, é um povo muito atencioso e acolhedor, que dá atenção a quem precisa. Apesar de ser um país burocrático para os negócios, vejo meu futuro sendo reconstruído aqui, junto com minha família e longe das lembranças do conflito na Síria que não saem da minha cabeça”, afirmou Ammar.
Entre as diferentes utilidades que uma bicicleta pode ter no contexto urbano, além do deslocamento para ir à escola ou facilitar a rotina de trabalho, o refugiado sudanês Omã* tem outra ideia para aproveitar veículo que ganhou da Rodas da Paz: manter-se saudável para que o corpo e a mente possam funcionar bem, “ainda mais aqui, no Brasil, em que a democracia e a liberdade são uma realidade e não apenas um discurso, onde se é possível pedalar sem medo por julgamentos da sua própria crença ou opinião”.
O Dia das Boas Ações foi promovido pela ONG Atados, e a doação das bicicletas aos refugiados teve o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH) – instituição parceira do ACNUR que atende refugiados, solicitantes de refúgio e migrantes estrangeiros na região do Distrito Federal (DF).
Para o porta-voz do ACNUR no Brasil, Luiz Fernando Godinho, “propostas como estas, que trazem juntos diferentes parceiros como o ACNUR, o IMDH e as organizações Rodas da Paz e Atados, são fundamentais para assegurar a solidariedade entre as pessoas e o pensamento coletivo na sociedade em que vivemos”.
A irmã Rosita Milesi, diretora do IMDH, afirmou que contribuir para a doação de bicicletas aos refugiados reforça o caráter de suprir mais uma importante necessidade desta população: se deslocar mais facilmente pela cidade. “Com as bicicletas, os refugiados podem se integrar mais à sociedade na medida em que passam a conhecer e a se relacionar com outras pessoas e espaços, ampliando seus conhecimentos e suas vivências”.
O IMDH é uma entidade social sem fins lucrativos que atua pela causa dos refugiados desde a sua fundação, em 1999. É parceira do ACNUR e promove o reconhecimento da cidadania plena de migrantes e refugiados, defendendo seus direitos, prestando assistência sociojurídica e humanitária e promovendo sua inclusão nas políticas públicas.
A ONG Rodas da Paz deu início a suas atividades em Brasília em 2003, com o objetivo de reagir à violência e ao crescente número de acidentes e mortes no trânsito do Distrito Federal. A organização trabalha com a promoção da mobilidade sustentável, plural e pacífica, como direito de todo cidadão por meio de inúmeros projetos sociais e iniciativas como a deste final de semana. Esta é a segunda ação que ela desenvolve em parceria com o ACNUR e o IMDH, sempre em benefício dos refugiados que vivem no DF.
O Dia das Boas Ações é o maior projeto mundial de voluntariado e, no Brasil, foi celebrado em Brasília, São Paulo e no Rio de Janeiro simultaneamente. A iniciativa foi criada em 2007 pela ONG israelense Ruach Tova. Desde então, a data reúne milhões de pessoas e milhares de organizações e empresas em todo o mundo para fazer o bem.
*Nome trocado por motivos de proteção.
Por Miguel Pachioni, de Brasília.