Mais de 5 mil nigerianos encontraram refúgio no acampamento de Dar es Salam, no lado chadiano do Lago Chade, depois de fugirem da terrível onda de violência de dezembro de 2014 promovida pela milícia Boko Haram. Um total de 2,4 milhões de pessoas no nordeste da Nigéria, Camarões e Níger foram deslocadas em razão da insurgência.
Enquanto o exército chadiano e uma força tarefa regional continuam combatendo o Boko Haram nas províncias ao redor do lago, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) concentra-se na proteção, abrigo e educação de refugiados.

Refugiados nigerianos continuam a pescar, muitas vezes em parceria com os chadianos da comunidade que os acolhe. Foto: ACNUR/Oualid Khelifi
O refugiado nigeriano Haveli Oumar acordou ao som de tiros e com a imagem de seu bairro em chamas quando o Boko Haram atacou Baga, sua cidade natal localizada no nordeste da Nigéria.
O pescador de 43 anos procurou desesperadamente os membros de sua família e descobriu que seu pai havia sido morto a tiros. Apesar de não ter conseguido reunir todos os filhos, Omar atravessou a fronteira e fugiu para o Chade em busca de segurança.
“Foi muito doloroso quando o Boko Haram atacou nossas casas”, disse. “Tivemos que fugir só com a roupa do corpo. Mais tarde, ouvi que dez pessoas da minha família tinham sido mortas. Alguns dos que sobreviveram foram para Camarões e outros para o Chade, mas demorou cerca de um ano até que o contato fosse restabelecido”.
Mais de 5 mil nigerianos encontraram refúgio no acampamento de Dar es Salam, no lado chadiano do Lago Chade, depois de fugirem da terrível onda de violência de dezembro de 2014 promovida pela milícia Boko Haram. Um total de 2,4 milhões de pessoas no nordeste da Nigéria, Camarões e Níger foram deslocadas em razão da insurgência.
Milhares de famílias estão separadas e desconhecem o paradeiro de entes queridos. Oumar ficou aliviado ao se reunir com sua filha Miriam, de 18 anos, dois meses atrás. “Nunca pensei que a veria novamente, mas aqui estamos nós, juntos”, disse. “Ela está frequentando novamente a escola e todos estamos esperançosos em gradualmente ter de volta uma vida comum”.
Enquanto o exército chadiano e uma força tarefa regional continuam combatendo o Boko Haram nas províncias ao redor do lago, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) concentra-se na proteção, abrigo e educação de refugiados. Trata-se de expandir os programas de subsistência a fim de atender a um número maior de pessoas em necessidade de assistência, com o objetivo de ajudá-las a retomar suas atividades econômicas e atingir a autossuficiência.
Os programas de subsistência fornecem os meios para que os pescadores do lago voltem a trabalhar. Até agora, 150 famílias beneficiadas receberam canoas, redes e equipamentos básicos de pesca.
O fluxo de refugiados estabilizou-se desde o ano passado, mas a economia na área do lago foi dramaticamente afetada. O fechamento das fronteiras com outros três países da bacia — Nigéria, Camarões e Níger — retraiu a pesca, o pastoreio e a agricultura, e quase interrompeu o comércio regional.
Estes são setores econômicos vitais para a região e para Bagasola, cidade chadiana na qual se localiza o campo de Dar es Salam e na qual está a maioria dos refugiados que escapou em direção ao Chade para fugir da ameaça do Boko Haram na Nigéria.
“Não posso voltar para casa”, disse Oumar. “Perdi meu pai e outras pessoas nos ataques. Penso nisso o tempo todo. Parece que aconteceu ontem”, declarou.
“Agora, mesmo que me digam que a paz está retornando gradualmente à minha aldeia, eu prefiro ficar no Chade. Tenho medo de voltar depois de tudo o que eu vi e vivi.”
Devido à volatilidade da região e à baixa perspectiva de um retorno dos refugiados num futuro próximo, o ACNUR espera intensificar os programas de subsistência para aqueles que estão no campo, para a comunidade de acolhimento regional e em Bagasola.
Os beneficiários recebem uma média de 10 dólares por semana, o que ajuda no sustento de suas famílias. No entanto, o programa abrange apenas 8% dos refugiados que vivem no campo e nos arredores da cidade. Mais financiamento é necessário para que outros pescadores, agricultores, pastores e comerciantes possam ser incluídos.
Oumar é um dos beneficiários. “Estou grato por ter recebido as ferramentas para retomar meu trabalho”, disse. “Sou um pescador, então, se conseguia sobreviver na Nigéria, consigo sobreviver aqui no Chade. Mas se tivéssemos mais mão de obra neste programa, redes maiores e equipamentos melhores, nós rapidamente cresceríamos sem depender de ajuda e tiraríamos toda a cidade, os refugiados e os moradores locais, dessa depressão econômica”.
Para o ACNUR e parceiros, o apoio à subsistência, para que os recursos limitados nos arredores de Bagasola sejam compartilhados, é essencial para alcançar a sustentabilidade e a coesão entre os refugiados e a comunidade que os acolhe.
De acordo com Docteur Koussoumbi, oficial associado de subsistência no escritório do ACNUR em Bagasola, o programa de autossuficiência tem sido bem-sucedido nas famílias atendidas até agora. Elas agora têm experiência em todos os aspectos da pesca, desde a operação do equipamento até a venda e distribuição dos produtos.
As mudanças climáticas também estão afetando profundamente as comunidades ao redor do Lago Chade, incluindo os refugiados. Devido à vulnerabilidade do ambiente do lago e à variação das chuvas, os programas de subsistência são uma prioridade para a comunidade humanitária, tanto em termos de políticas como de financiamento.
A área de superfície do lago encolheu para menos de um vigésimo de seu tamanho em 1960 e espécies prejudiciais de plantas aquáticas cobrem aproximadamente 50% do que restou. A vegetação se enraíza no chão do lago durante as estações secas e quando o nível da água sobe depois da chuva, bloqueia a costa, impedindo que as comunidades velejem com seus barcos.
“Este é um novo fenômeno preocupante”, disse Koussoumbi. “É cada vez mais difícil para os pescadores o ato de navegar pelo lago. As plantas também quebram as redes e interrompem as atividades de pesca”.