Segundo relatório de agência humanitária da ONU, há um descompasso entre a avaliação de risco de uma região e a quantidade de doações recebidas. Obstáculos políticos, financeiros e institucionais, contudo, dificultam mudanças.

Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, inspeciona a destruição na cidade de Tacoblan pelo tufão Haiyan, em 2013. Foto: ONU/Evan Schneider
Em relatório divulgado nesta segunda-feira (31/3), a vice-coordenadora do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), Kyung-wha Kang, desafiou os modelos de desenvolvimento e assistência humanitária a aprimorarem seus métodos de ação e enfatizou a prevenção de crises através de uma efetiva análise de riscos.
“Devemos atacar as causas dos problemas, não apenas seus sintomas”, resumiu a coordenadora durante a divulgação do relatório “Salvando vidas hoje e amanhã”, que aborda a discrepância entre a avaliação de riscos e a alocação de doações. “Se temos alguma chance de acabar com o sofrimento, devemos impedi-lo de acontecer em primeiro lugar.”
Além de recomendar a prevenção de catástrofes humanitárias como prioridade, o relatório também sugere a criação de novas parcerias e incentivos, a mudança e sistematização dos atuais processos de identificação de riscos e a angariação de recursos para salvar vidas em longo prazo.
Melhor prevenir que remediar
O OCHA ilustra dois casos no fim de 2013 como exemplos da necessidade de revisar os paradigmas de assistência humanitária: a devastação pelo tufão Haiyan na cidade filipina de Tacloban e o surto de violência em Bangui, República Centro-Africana (RCA), após meses de crescentes tensões e anos de descaso pela comunidade internacional.
Em ambos os eventos, classificados com o mais alto grau de emergência da ONU para desastres humanitários (L3), os cidadãos sofreram graças a um sistema de auxílio que prioriza a reação ao invés da antecipação, adverte a OCHA. Por exemplo, embora a RCA fosse considerada a terceira nação do mundo em maior situação de risco humanitário, ela foi somente a 78ª maior recipiente de doações internacionais.
Embora enfatize que a “análise de risco é muito mal utilizada na tomada de decisões”, Kang reconhece as dificuldades práticas em se alterar o foco da reação para a prevenção. “Embora esteja disponível, a informação nem sempre se traduz em ação, ora devido a difíceis conjunturas financeiras, ora graças a obstáculos políticos e institucionais.”