Alertando para crise, representantes do Conselho de Segurança da ONU visitam região do Lago Chade

De acordo com a ONU, 14 milhões de pessoas foram afetadas pela violência promovida pelo Boko Haram, e 8,5 milhões necessitam de ajuda humanitária urgente. Representantes do Conselho de Segurança da ONU visitaram países da região: Níger, Nigéria, Camarões e Chade.

Reunião de membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas com deslocados internos no norte de Camarões, no dia 3 de março de 2017. Foto: Lorey Campese / Missão do Reino Unido

Reunião de membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas com deslocados internos no norte de Camarões, no dia 3 de março de 2017. Foto: Lorey Campese / Missão do Reino Unido

A crise na Bacia do Lago Chade na África é uma preocupação global e é preciso agir, afirmou o Conselho de Segurança da ONU na segunda-feira (6) ao final de sua visita aos quatro países da região.

O órgão da ONU prometeu dar apoio de longo prazo aos governos e aos povos dos países na luta contra o grupo armado Boko Haram.

“Nem a luta militar contra o terrorismo nem a resposta humanitária imediata vão resolver essas crises prolongadas”, afirmou o embaixador do Reino Unido, Matthew Rycroft, que lidera a visita à região.

“O que é necessário é o desenvolvimento de longo prazo”, disse Rycroft, notando a necessidade de empregos; de educação; direitos humanos; serviços para pessoas deslocadas e refugiadas; e soluções para lidar coma seca e outros desafios ambientais.

Ele afirmou que esses complexos problemas exigem um conjunto holístico de soluções, e disse que a intenção da visita do Conselho é justamente encontrar essas respostas.

No domingo (5), os membros do Conselho se reuniram com deslocados internos na Vila dos Professores, em Maiduguri, no estado de Borno, no nordeste da Nigéria.

A região é conhecida como o epicentro da crise promovida pelo Boko Haram, e cerca de metade das pessoas deslocadas que vivem no campo são crianças.

De acordo com a ONU, cerca de 14 milhões de pessoas foram afetadas pela violência promovida pelo Boko Haram, e 8,5 milhões necessitam de ajuda humanitária urgente.

Os integrantes do Conselho também conversaram com os membros da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) sobre a coordenação da resposta para a região e compartilhamento de informações, e se reuniram com o presidente em exercício da Nigéria, Yemi Osinbajo, e outros líderes políticos.

Depois de visitar a Nigéria, os Camarões, Chade e o Níger, o Conselho sublinhou que “quase nada está sendo feito” contra a crise humanitária na Bacia do Lago Chade.

“A escala que vimos é de uma crise crescente. A fome está sendo evitada no momento devido à generosidade dos doadores e à eficácia das respostas nacionais”, disse Rycroft, pedindo à comunidade internacional que continue intensificando a ajuda antes que seja muito tarde.

Níger é um dos países mais pobres do mundo

Os integrantes do Conselho de Segurança visitaram no domingo (5) pela primeira vez o Níger, um dos países mais pobres do mundo.

“Demonstramos nossos compromissos de apoiar ainda mais o Níger em seus esforços notáveis para restaurar a estabilidade da segurança das localidades na Bacia do Lago Chade, mas também para fornecer a proteção e a assistência necessárias às populações afetadas pela crise”, frisou Matthew Rycroft.

Os diplomatas se encontraram também com o presidente, Mahamadou Issoufou, e ouviram de representantes de agências humanitárias relatos sobre a difícil situação na região de Diffa e na fronteira do Níger com a Nigéria.

Apesar do aumento da segurança, pessoas – como esta família no campo de Minawao, em Camarões – ainda enfrentam condições difíceis nos países que hospedam refugiados nigerianos na Bacia do Lago Chade. Os principais desafios diários incluem proteção insuficiente, abrigo duradouro e falta de alimentos, cuidados de saúde, desnutrição, educação e meios de subsistência. Foto: ACNUR/Helene Caux

Apesar do aumento da segurança, pessoas – como esta família no campo de Minawao, em Camarões – ainda enfrentam condições difíceis nos países que hospedam refugiados nigerianos na Bacia do Lago Chade. Os principais desafios diários incluem proteção insuficiente, abrigo duradouro e falta de alimentos, cuidados de saúde, desnutrição, educação e meios de subsistência. Foto: ACNUR/Helene Caux

A insegurança gerada pela violência do grupo terrorista Boko Haram fez com que milhares de pessoas ficassem deslocadas. O Níger também enfrenta seca, desertificação, falta de empregos e de escolas para os jovens, que compõe um terço da população.

O país é o último do ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, que traz dados de 188 nações. O embaixador do Reino Unido destacou ser “impossível visitar o Lago Chade sem reconhecer o valor do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16”.

Essa meta busca promover a paz e as sociedades inclusivas, com justiça para todos.

No Chade e Camarões, Conselho de Segurança pede cooperação regional para enfrentar Boko Haram

Em visita ao Chade, os membros do Conselho destacaram a situação de 11 milhões de pessoas em necessidade urgente na região e pediram uma maior cooperação regional para enfrentar o Boko Haram.

Na capital N’Djamena, os membros do Conselho se reuniram com o primeiro-ministro do país, Albert Pahimi Padacké, e visitaram a Força Tarefa Multinacional Conjunta (MNJTF), que inclui tropas dos quatro países da região que lutam contra o grupo armado – Nigéria, Camarões, Chade e Níger.

As conversas com o primeiro-ministro também focaram na situação econômica do Chade e na importância de mulheres participarem da economia e da política da região.

Os membros do Conselho ainda se reuniram com representantes das agências das Nações Unidas, fundos e programas, bem como com organizações não governamentais que trabalham no país.

As organizações estão atuando para ajudar milhões de pessoas que, além da ameaça do Boko Haram e da luta contra o grupo terrorista, também enfrentam grandes crises alimentares e nutricionais.

Cerca de 2,4 milhões de pessoas estão deslocadas na região, de acordo com dados da ONU, e mais de 7,1 milhões estão sofrendo com a fome.

Em conversas com o Conselho, coordenador humanitário da ONU e coordenador residente no Chade, Stephen Tool, detalhou os graves desafios que os países enfrentam, que incluem desnutrição, doenças e falta de saneamento.

“Não é possível lidar com questões humanitárias sem olhar para as causas profundas, que incluem insegurança, lacunas no desenvolvimento, falta de educação, agricultura pobre, entre outros problemas”, destacou.

Em Camarões, os membros encontraram o presidente, Paul Biya, e outros altos funcionários do governo, bem como refugiados e pessoas deslocadas pelo Boko Haram.

“Ouvimos as histórias individuais de refugiados, pessoas deslocadas e outras vítimas de Boko Haram”, disse Rycroft.

“Estamos de acordo com o governo e com o povo de Camarões, e com a região em geral, para combater o flagelo do terrorismo. Encorajamos todos a analisar amplamente e profundamente as causas do conjunto de crises que estão acontecendo aqui”, acrescentou.