Após denúncias graves, chefe da ONU aceita demissão de seu representante na República Centro-Africana

Além disso, Ban Ki-moon pediu imediatamente reunião global com todos os chefes de missões e um encontro de emergência no Conselho de Segurança. “Os líderes devem relatar imediatamente alegações, investigar exaustivamente e agir de forma decisiva. Não fazer isso terá consequências claras”, disse.

Na imagem, desertores do grupo “ex-Séléka” procurando proteção da força de paz da ONU na base de Kaga-Bandoro, na República Centro-Africana (RCA) em julho de 2014. Foto: ONU/Catianne Tijerina

Na imagem, desertores do grupo “ex-Séléka” procurando proteção da força de paz da ONU na base de Kaga-Bandoro, na República Centro-Africana (RCA) em julho de 2014. Foto: ONU/Catianne Tijerina

Intensificando a resposta da ONU ao que a Organização classificou nesta quarta-feira (12) como “flagelo global” do abuso sexual em missões de campo, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, informou que demitiu seu representante especial na República Centro-Africana. Ele informou ainda que solicitou uma sessão especial do Conselho de Segurança, que ocorrerá nesta quinta-feira (13).

Integrantes das forças de paz da ONU sofreram severas críticas da organização internacional Anistia Internacional, com acusações de violência sexual e assassinatos cometidos pelas forças da ONU. Um dos casos envolveu o estupro de uma menina de apenas 12 anos de idade, que foi ouvida logo após o incidente por integrantes da Anistia.

“Eu não posso colocar em palavras o quão angustiado, irritado e envergonhado eu estou após os recorrentes relatórios ao longo dos anos acerca da exploração sexual e abuso por parte de forças da ONU”, disse Ban Ki-moon em uma coletiva de imprensa em Nova York. Ele lamentou o número preocupante de denúncias de abusos e afirmou que o “desafio sistêmico” de abuso sexual exigiu “uma resposta sistêmica” pela ONU.

“Quando as Nações Unidas implantam suas forças de paz, o fazemos para proteger as pessoas mais vulneráveis do mundo em lugares mais desesperados do mundo”, destacou Ban Ki-moon. “Não vou tolerar qualquer ação que leve as pessoas a substituir a confiança pelo medo.”

O chefe da ONU convocou uma videoconferência com os representantes, comandantes e comissários de polícia de todas as forças da paz das Nações Unidas, o que deve acontecer também na quinta (13). Além disso, ele anunciou a demissão imediata do seu representante especial, Babacar Gaye, que também era chefe da missão da ONU no país (MINUSCA).

“[Sr. Gaye] apresentou a sua demissão a meu pedido ontem”, explicou Ban Ki-moon, em resposta a uma pergunta da imprensa. Ele acrescentou que, enquanto esta pode parecer um “ação muito forte” para um representante especial que tem trabalhado de forma honrosa durante muitos anos no Sistema das Nações Unidas, “eu realmente queria mostrar um exemplo uma mensagem fortes para toda a comunidade internacional.”

“Vou reiterar que os líderes devem relatar imediatamente alegações, investigar exaustivamente e agir de forma decisiva. Não fazer isso terá consequências claras”, ressaltou em seu discurso de abertura durante a coletiva. “Eu quero que as vítimas saibam que nós vamos lutar para manter a nossa responsabilidade institucional de salvaguardar a sua segurança e dignidade.”

Esses últimos relatos chegam após uma outra série de alegações de abuso sexual em torno de uma mobilização de forças militares estrangeiras no país, no início de 2015.

A situação de profunda instabilidade na República Centro-Africana é agravada por uma crise humanitária crescente. A ONU estima que cerca de 450 mil pessoas permanecem deslocadas dentro do país, enquanto outras milhares foram forçadas a atravessar as fronteiras.

Cerca de 2,7 milhões de pessoas na RCA – mais da metade da população – permanecem em necessidade de assistência humanitária urgente.