O secretário-geral da ONU, António Guterres, publicou nesta segunda-feira (29) um artigo sobre as forças de paz no jornal norte-americano Boston Globe. Ao lembrar os capacetes azuis que morreram em campo, Guterres reforçou a importância das missões de paz para garantir proteção a civis e o trabalho das agências humanitárias.

António Guterres, secretário-geral da ONU – Foto: Mark Garten/ONU
O secretário-geral da ONU, António Guterres, publicou nesta segunda-feira (29) um artigo sobre as forças de paz no jornal norte-americano Boston Globe. Ao lembrar os capacetes azuis que morreram em campo, Guterres reforçou a importância das missões de paz para garantir proteção a civis e o trabalho das agências humanitárias.
Leia, abaixo, a íntegra do artigo:
Quando entrei no prédio do Secretariado das Nações Unidas pela primeira vez como secretário-geral, em janeiro, coloquei uma coroa de flores homenageando mais de 3,5 mil funcionários da ONU que morreram a serviço da paz. Mais tarde naquela mesma semana, dois capacetes azuis foram mortos na República Centro-Africana, onde trabalhavam para prevenir que confrontos violentos entre comunidades se transformassem em assassinatos em massa. Os soldados de paz das Nações Unidas colocam-se à frente do perigo todos os dias, entre grupos armados que tentam se matar ou causar danos aos civis.
Um número incontável de vidas foi salvo e recuperado pelos serviços de manutenção de paz da ONU nos últimos 70 anos; incontável número de famílias devastadas pelas guerras ganhou um novo começo. Pesquisas independentes têm mostrado o valor da manutenção da paz: previne que a violência se espalhe e normalmente reduz o número de civis mortos em mais de 90%, comparado com índices antes da chegada das tropas de paz.
Também sabemos que a manutenção da paz tem um custo-benefício. O orçamento das missões de paz da ONU é de menos de 1% dos gastos militares globais, e é compartilhado entre todos os 193 Estados-membros da ONU. Estudos dos Estados Unidos mostram que as missões de paz têm um custo-benefício oito vezes maior do que quando os EUA agem sozinhos. Esse investimento compensa muito mais quando consideramos o crescimento econômico e a prosperidade que surgem com o aumento da estabilidade e da segurança após missões de paz de sucesso.
No nosso mundo interconectado, o surgimento do terrorismo global significa que a instabilidade em qualquer lugar é uma ameaça em todos os lugares. As operações de paz das Nações Unidas estão na linha de frente dos nossos esforços em prevenir o aparecimento de regiões sem leis, onde insegurança, crime transnacional e extremismo podem prosperar. Elas são um investimento na paz global, na segurança e na prosperidade.
Nossas missões têm contribuído para um legado de estabilidade, desenvolvimento e crescimento econômico, de El Salvador a Namíbia, de Moçambique ao Camboja. Cinquenta e quatro operações de paz completaram seus mandatos e foram encerradas; outras duas, na Libéria e na Costa do Marfim, terminam nos próximos meses.
Enquanto as Nações Unidas enfrentam desafios e deficiências nos esforços para a manutenção da paz, devemos também reconhecer os sucessos da nossa missão pela paz.
A República Centro-Africana enfrentava a ameaça do genocídio quando os capacetes azuis chegaram ao país há dois anos. Hoje, o país elegeu um novo governo, num processo pacífico e democrático, e está lutando para seguir no caminho da paz e da estabilidade, do desarmamento e do Estado de Direito. Nossa missão, MINUSCA, está fornecendo apoio crucial para reduzir a ameaça imposta pelos grupos armados, mas a situação continua sendo um desafio. É assustador imaginar as consequências trágicas caso os soldados de paz não estivessem no país.
No Sudão do Sul, os capacetes azuis da ONU oferecem proteção a mais de 200 mil civis que fugiram quando tiveram as casas destruídas pelos confrontos. Enquanto a fome assola o país, os soldados de paz garantem segurança para que agências humanitárias entreguem ajuda que salva vidas.
A paz mundial, como conceito, pode parecer algo muito abstrato. Mas a paz verdadeira depende de um trabalho duro e exaustivo, todos os dias, sob circunstâncias difíceis e perigosas. O mundo confia nas equipes de manutenção da paz das Nações Unidas, presentes onde ninguém mais pode ou quer estar, apesar dos vários obstáculos que enfrentam.
Com frequência, as operações de paz das Nações Unidas encontram lacunas entre os objetivos e os meios que temos para alcançá-los. Em muitos locais, os capacetes azuis são enviados onde os lados em conflito demonstram pouco comprometimento com a paz. Cada vez mais nossas missões são alvo das partes em conflito e de extremistas violentos.
Lidar com essa nova realidade requer uma reforma estratégica séria da nossa parte, baseada em análises dos mandatos e das capacidades das nossas missões e das nossas parcerias com governos. Devemos adaptar as operações de paz aos ambientes perigosos e desafiadores que enfrentam.
Já fizemos reformas que reduziram significativamente custos e nos deram maior flexibilidade para enviar soldados de paz de forma rápida. Mas muito mais precisa ser feito. Estou determinado a trabalhar com governos, organizações regionais e outros parceiros para garantir que as forças de manutenção da paz tenham os instrumentos e regras necessárias.
A reputação das missões de paz das Nações Unidas ficou marcada nos últimos anos por casos lamentáveis de exploração sexual e de abusos, que são uma violação chocante de tudo o que valorizamos. Combater esse flagelo é uma prioridade para todo o sistema das Nações Unidas. Apresentei um plano aos Estados-membros que busca acabar com a impunidade, e criar postos de defensores dos direitos das vítimas, tanto nas missões de paz quanto nos escritórios da ONU. Pretendo mobilizar os líderes mundiais com estas iniciativas.
Quando as pessoas ao redor do mundo são questionadas sobre suas prioridades, de Nova Iorque a Nova Déli, do Cairo a Cidade do Cabo, elas dão a mesma resposta. Elas querem segurança, criar seus filhos em paz e dar a eles educação e oportunidades para o futuro.
Os capacetes azuis da ONU são uma das nossas maneiras de contribuir para essa aspiração universal e tornar o mundo um lugar mais seguro para todos.