Em artigo de opinião publicado no ‘New York Times’, o chefe da ONU comenta sobre as críticas recebidas após declarar que a ocupação dos Territórios Ocupados Palestinos é insustentável. No texto, Ban volta a pedir cooperação para uma solução de dois Estados como uma forma de acabar com a violência na região.

No monte do Templo, na cidade velha de Jerusalém Oriental, muçulmanos deixam a Cúpula da Rocha após as orações de sexta-feira. A presença da polícia é sempre estrita e jovens homens são impedidos de entrar ou têm suas identidades confiscadas. Foto: IRIN/Edward Parsons
Em Israel e nos Territórios Palestinos Ocupados, 2016 começou como 2015 terminou – com níveis inaceitáveis de violência e um discurso público polarizado. Essa polarização mostrou-se nos corredores das Nações Unidas na semana passada quando eu indiquei uma verdade simples: a História prova que as pessoas vão sempre resistir à ocupação.
Alguns tentaram atirar no mensageiro – torcendo minhas palavras para justificar, de forma equivocada, a violência. As facadas, atropelamentos propositais e outros ataques de palestinos contra civis israelenses são condenáveis. Assim como é o incitamento à violência e à glorificação de assassinos.
Nada justifica o terrorismo. Eu o condeno categoricamente.
É inconcebível, porém, que as medidas de segurança por si só possam acabar com a violência. Como eu alertei ao Conselho de Segurança na semana passada, a frustração e reivindicações palestinas estão crescendo sob o peso de quase meio século de ocupação. Ignorar isso não a fará desaparecer. Ninguém pode negar que a realidade cotidiana da ocupação provoca raiva e desespero, que são os principais motores de violência e extremismo e minam qualquer esperança de uma solução negociada de dois Estados.
Assentamentos israelenses continuam expandindo. O Governo aprovou planos para mais de 150 novas casas em assentamentos ilegais na Cisjordânia ocupada. No mês passado, 370 acres na Cisjordânia foram declaradas “terras do Estado”, um status que normalmente leva à utilização exclusiva de colonos israelenses.
Ao mesmo tempo, milhares de casas palestinas na Cisjordânia sofrem risco de demolição por causa de obstáculos que podem ser legais no papel, mas são discriminatórias na prática. Palestinos – especialmente os jovens – estão perdendo a esperança com o que parece ser uma ocupação cruel, humilhante e sem fim. Os israelenses também estão sofrendo ataques quase diários e perdem de vista a possibilidade de uma paz abrangente com os palestinos.
Juntamente com os Estados Unidos, a União Europeia e a Rússia, a Organização das Nações Unidas está pedindo mudanças substanciais na política para reforçar os pilares econômicos, institucionais e de segurança da Autoridade Palestina. Estamos em contato com os países árabes da região para obter o apoio que ambos os lados precisam para trazer a paz e segurança aos israelenses e palestinos.
Continuamos a trabalhar com Israel e a Autoridade Palestina para reconstruir Gaza e impedir outro conflito devastador, e para pressionar os palestinos para uma verdadeira reconciliação nacional. É claro que um acordo duradouro entre Israel e a Palestina exigirá compromissos difíceis por líderes e povos de ambos os lados. As autoridades israelenses devem apoiar de forma inequívoca a Autoridade Palestina e instituições palestinas. Isso requer mudanças significativas nas políticas em relação à Cisjordânia e Gaza, salvaguardando legítimas preocupações de segurança de Israel.
Tais medidas podem começar com moradia, água, energia, comunicações, agricultura e acesso aos recursos naturais. Devem incluir especificamente a aprovação imediata de planos diretores propostos por comunidades palestinas na Área C controlada por Israel na Cisjordânia, que permitirá investimento e desenvolvimento.

Em At Tur, perto do hospital Al Maqassad, em Jerusalém Oriental, um dos vários bloqueios, colocados por forças israelenses em outubro de 2015 em bairros palestinos, após o início de uma onda violência no Território Ocupado Palestino e Israel. Foto: OCHA
Por sua parte, os palestinos devem fazer compromissos políticos para trazer Gaza e a Cisjordânia sob um governo de autoridade única e democrática, de acordo com os princípios estabelecidos por sua organização central nacional, a Organização de Libertação da Palestina. Isto também significa denunciar o terrorismo de forma consistente e firme e tomar medidas preventivas para pôr fim aos ataques contra israelenses, incluindo a cessação imediata da construção do túnel em Gaza.
Eu sempre vou me posicionar contra aqueles que desafiam o direito de Israel a existir, assim como eu vou sempre defender o direito dos palestinos de ter um Estado próprio. É por isso que estou tão preocupado que estamos chegando a um ponto de não retorno para a solução de dois Estados. E eu estou consternado pelas declarações de membros do alto escalão do governo de Israel de que este objetivo deveria ser abandonado por completo.
O impasse acarreta riscos graves para ambos os lados: a continuação da onda mortal de terrorismo e assassinatos; o colapso da Autoridade Palestina; maior isolamento e pressão internacional sobre Israel; e uma corrosão da fundação moral das sociedades israelense e palestina, cada vez mais acostumadas com a dor do outro.
Críticas às Nações Unidas – ou ataques contra mim – são esperadas. Mas quando preocupações sinceras sobre políticas míopes ou moralmente prejudiciais emanam de tantas fontes, incluindo amigos muito próximos de Israel, não pode ser sustentável continuar batendo em cada crítica bem intencionada.
Todos são livres para escolher o que eles gostam ou não gostam dos discursos. Mas chegou a hora para os israelenses, palestinos e a comunidade internacional de se dar conta da realidade: o status quo é insustentável. Manter outro povo sob ocupação indefinida enfraquece a segurança e o futuro de ambos, israelenses e palestinos.
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Este artigo de opinião do secretário-geral da ONU, Ban-Ki-moon, foi publicado no jornal ‘The New York Times’ em 31 de janeiro de 2016.