Em artigo publicado na imprensa britânica, o pesquisador da Organização Internacional para as Migrações (OIM), Jasper Dag Tjaden, lembra que estrelas do futebol, gênios da ciência e astros de Hollywood estão entre os 258 milhões de migrantes espalhados pelo mundo. Mas personalidades famosas não são vistas da mesma maneira que outros indivíduos e trabalhadores que cruzam fronteiras, o que mostra como as percepções sobre os fenômenos migratórios estão distorcidas.

Jogador português Cristiano Ronaldo. Foto: Flickr (CC)/RCuerda29
Por Jasper Dag Tjaden, pesquisador do Centro de Análise de Dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM)*
Quando a maioria das pessoas ouve a palavra “migração” ou “migrantes”, elas provavelmente pensam em pessoas amontoadas em pequenas embarcações, fugindo para a Grécia ou para a Itália. Eu duvido que a palavra “migrante” evoque as imagens de Cristiano Ronaldo, Kate Winslet ou Albert Einstein. Isso não é o que as pessoas querem dizer quando falam sobre migrantes. Mas deveria ser.
O jogador de futebol mais bem-sucedido do mundo, uma atriz do segundo filme de maior sucesso de todos os tempos e uma das pessoas mais inteligentes na história são todos tecnicamente migrantes. Eu não estou escolhendo a dedo. Minha própria pesquisa mostra que 55% dos futebolistas internacionais, quase metade dos nomeados ao Oscar de Melhor Ator e Melhor Atriz desde 2000 e cerca de um terço dos nomeados para o prêmio Nobel desde 1901 eram migrantes.
A agência de migração da ONU define um migrante como “qualquer pessoa que está se deslocando ou se deslocou por uma fronteira internacional ou dentro de um Estado, para longe de seu lugar habitual de residência, independentemente de seu status legal, causa ou razão para o deslocamento ou duração da estadia no país de destino”. O Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas contabiliza como “migrantes internacionais” as pessoas que estão vivendo em um país fora de onde elas nasceram ou do país cujo passaporte possuem. A ONU recomenda que qualquer um que permaneça em outro país por mais de três meses seja considerado um migrante internacional.
Ronaldo, Winslet e Einstein definitivamente preencheriam os requisitos. Ronaldo é um cidadão português que teve empregos na Inglaterra e na Espanha durante a maior parte de sua carreira. Winslet, que é britânica, trabalha nos Estados Unidos e morou lá por longos períodos em sua carreira. O alemão e vencedor do prêmio Nobel Einstein trabalhou na Universidade de Princeton por mais de 20 anos e adquiriu a cidadania estadunidense em 1940.
A ONU estima que existam aproximadamente 258 milhões de migrantes internacionais no mundo — isso equivale a 3,4% da população mundial. Mas em média isso é muito mais comum no futebol, na atuação e na academia do que em todo o mundo. As pessoas frequentemente não associam migração com os riscos e famosos, mas os dados contam uma uma história diferente.
Minha análise, baseada em estatísticas de 2017 da FIFA, revela que 55% de todos os jogadores ativos que competiram por uma seleção em 2017 jogavam em um time fora do país onde eles têm cidadania. Mais de 90% dos jogadores das seleções da Colômbia, Bélgica, Irlanda, Suécia e Suíça jogavam em um time no exterior; 87% da seleção argentina e 83% da seleção brasileira ganhavam dinheiro fora do seu país de cidadania. A média é menor para as seleções europeias maiores: 48% dos jogadores da seleção espanhola, 39% nas seleções francesa e alemã e 13% dos italianos eram, de fato, migrantes. Dos cem melhores jogadores em 2017, 72 eram migrantes. Essas estatísticas não incluem nem mesmo os jogadores que nasceram em um país diferente do qual cresceram e que, mais tarde, adquiriram cidadania.
A busca em dados de todos os nomeados para o Oscar de Melhor Ator e Melhor Atriz desde o ano 2000 mostra que, em média, 41% daquelas pessoas lindas e talentosas são ou eram migrantes. Ou elas nasceram no exterior e se mudaram para Hollywood ou, no mínimo, elas trabalharam nos Estados Unidos por um longo período de tempo. Os dois casos fazem delas migrantes. Há mais mulheres migrantes em Hollywood do que homens: 45% das mulheres nomeadas nasceram fora dos Estados Unidos ou possuem um passaporte que não é estadunidense, em comparação a 33% dos homens nomeados. A maioria deles pode até ser britânica, australiana ou canadense, mas só porque a maioria dos atores “estrangeiros” fala inglês como sua língua materna, isso não os torna menos migrantes.
Com base numa análise de todos os laureados do Nobel desde 1901, 29% de todos os nomeados para um prêmio Nobel em suas respectivas disciplinas eram migrantes. “Migrante”, nesse caso, significa que eles foram nomeados por seu trabalho em uma instituição localizada fora do seu país de nascimento (independentemente de mudanças nas fronteiras). A porcentagem varia ao longo do tempo, entre 0% em 1922, 1965 e 1976, por exemplo, e 75% em 1957 e 1971. Não parece haver uma tendência crescente ou descendente clara com o tempo, o que sugere que as pessoas mais espertas foram pesquisadores internacionais desde que os suecos e noruegueses começaram a conceder os prêmios.
No entanto, apresar de migrantes estarem sobre-representados entre as pessoas mais bem-sucedidas e privilegiadas do mundo, a hostilidade contra a migração perdura. A Ipsos Mori descobriu que, em muitos países ocidentais, as pessoas superestimam o número de migrantes que vivem em seu país por uma ampla margem. Isso sugere que talvez tenhamos uma ideia distorcida de quem é, na verdade, um migrante e do que eles trazem de contribuição. As percepções importam. Elas podem afetar atitudes gerais em relação a políticas de migração e alterar eleições.
Talvez muito do que esteja errado com o modo como pensamos sobre migração se reflita na questão do por que nós não pensaríamos em pessoas bem-sucedidas, ricas, inteligentes e bonitas como migrantes. Os 258 milhões de migrantes internacionais que a ONU estima que estejam espalhados pelo mundo são um grupo diverso: jogadores de futebol, atores, premiados do Nobel, mas, não menos importante, enfermeiras, agricultores, mecânicos, cozinheiros, empreendedores e cônjuges — e todos eles merecem ser valorizados.
*Publicado originalmente no jornal britânico The Guardian, em 2 de maio de 2018