Ban Ki-moon: Corrigindo um erro no Haiti

Artigo de Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, cumprimenta pessoas em um abrigo durante sua visita em outubro de 2016 à cidade de Les Cayes, no Haiti, que foi fortemente danificada pelo furacão Matthew. Foto: Logan Abassi/ONU/MINUSTAH

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, cumprimenta pessoas em um abrigo durante sua visita em outubro de 2016 à cidade de Les Cayes, no Haiti, que foi fortemente danificada pelo furacão Matthew. Foto: Logan Abassi/ONU/MINUSTAH

No início de dezembro, me dirigi à Assembleia Geral da ONU para delinear uma nova abordagem de combate ao cólera no Haiti – uma doença que atingiu quase 800 mil pessoas e matou mais de 9 mil haitianos nos últimos seis anos.

Esta tragédia lançou uma sombra sobre a relação entre a ONU e o povo do Haiti. Trata-se de uma mancha na reputação das operações de paz da ONU, bem como na da Organização em todo o mundo.

Comecei meu discurso para a Assembleia Geral com uma mensagem para o povo haitiano: as Nações Unidas lamentam profundamente a perda de vidas e o sofrimento causado pelo surto de cólera no Haiti. Nós pedimos desculpas. A ONU simplesmente não fez o suficiente com relação ao surto de cólera e sua propagação no Haiti. Lamentamos profundamente o nosso papel.

Em 2014, viajei ao Haiti para encontrar famílias afetadas. Foi uma das viagens mais difíceis que fiz ao longo de uma década como secretário-geral. Ouvi histórias de famílias que sofreram, chefes de família que se foram, filhas e filhos que nos deixaram para sempre.

O povo do Haiti enfrentou enormes dificuldades e obstáculos ao longo dos anos. Pobreza endêmica. Instabilidade política. E, claro, o devastador terremoto de 2010. A epidemia de cólera que logo seguiu adicionou uma camada mais profunda de tragédia e sofrimento.

Não há respostas fáceis ou soluções perfeitas para os desafios no Haiti. Mas isso não deve impedir que os membros das Nações Unidas cumpram sua responsabilidade coletiva e moral de agir.

A nova abordagem da ONU para combater o cólera tem duas frentes, com custos de aproximadamente 400 milhões de dólares em dois anos.

A primeira consiste em um esforço intensificado para responder e reduzir a incidência de cólera no Haiti. Isso significa melhorar o acesso das pessoas ao tratamento, e ao mesmo tempo fortalecer os sistemas de água, saneamento e saúde. Esta é a melhor defesa em longo prazo contra o cólera e outras doenças transmitidas pela água.

O trabalho nessa primeira frente está bem encaminhado. O número de equipes de resposta rápida ao cólera, por exemplo, aumentou de 32 em abril para 88 hoje. Quando há relatos de novos casos, essas equipes trabalham para fornecer atendimento imediato dentro de 48 horas e prevenir a transmissão. As vacinas contra o cólera também estão sendo fornecidas a pessoas em áreas vulneráveis.

A missão para eliminar a doença no Haiti é realista e factível. O cólera é tratável e evitável. Graças aos esforços coordenados – internacionais e haitianos –, a incidência da doença foi reduzida em aproximadamente 90% desde o seu pico, em 2011. Mais recursos e meios de fornecimento atrasam uma resposta mais adequada.

Nossa nova abordagem também inclui uma segunda frente, com foco nos haitianos mais diretamente afetados pelo cólera, suas famílias e comunidades. Essa segunda frente é uma expressão concreta do pesar da nossa Organização pelo sofrimento que tantos haitianos sofreram.

A abordagem apoia as comunidades e as pessoas mais gravemente afetadas pelo cólera, se baseando nas prioridades estabelecidas por meio de consultas locais.

Esta assistência pode assumir muitas formas, incluindo projetos para aliviar os impactos do cólera e outros males que, embora não diretamente relacionados com essa doença, refletem as necessidades da comunidade, tais como bolsas de educação, microfinanciamentos ou outras iniciativas.

Seja qual for o eventual desenho do pacote, um obstáculo familiar mais uma vez está no caminho: o financiamento adequado. Se os recursos não chegarem, poderão ser necessárias soluções de financiamento inovadoras.

A minha mensagem à Assembleia Geral foi clara: sem vontade política e apoio financeiro dos membros das Nações Unidas, temos apenas boas intenções e palavras. As palavras são poderosas – mas não substituem a ação e o apoio material.

Tantas pessoas sofreram gravemente. As Nações Unidas e seus membros têm o poder de reconhecer e responder a esse sofrimento. É hora de a comunidade internacional agir em solidariedade, cumprir o nosso dever moral e fazer a coisa certa para o povo haitiano e as Nações Unidas.

BAN KI-MOON É SECRETÁRIO-GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS.