Apicultores de Carnaíba e da região cuidam de mil colmeias que produziram 8,5 toneladas de mel em 2015. Os produtores também exploram subprodutos, como própolis e cera. Além de serem fonte de subsistência, abelhas fortalecem produção de alimentos: 71 dos 100 principais cultivos do mundo são polinizados por esses insetos.
Em Pernambuco, uma parceria do Banco Mundial e do governo estadual permitiu a 4 mil famílias de apicultores da região de Carnaíba a adquirir novos equipamentos e modernizar sua produção de mel. O programa — chamado Prorural — reconhece a qualidade do trabalho desenvolvido por esses pequenos produtores e quer levar a produção local para o todo o estado e o resto do Brasil.
Na paisagem árida do interior do nordeste brasileiro, uma pequena espécie resiste enquanto muitas sucumbem ao calor e à seca: as abelhas. Os agricultores da região já perderam as contas de quantos bois já morreram após cinco anos de estiagem.
Mas as mil colmeias cuidadas pelos 50 sócios da Associação dos Apicultores de Carnaíba e Região, cada uma abrigando de 60 mil a 120 mil insetos nativos ou africanos, continuam suas atividades.
“O homem não cria a abelha, é ela que cria o homem. Até quando morre ela nos sustenta, pois nos dá a cera”, conta o presidente da associação de apicultores, Luiz Alves Siqueira, mais conhecido como Luiz de Joel. “Por mais crítico que seja o ano, nunca ficamos sem produção”, acrescenta.
Isso não quer dizer que o grupo de produtores possa se acomodar. O nordeste brasileiro é uma região extremamente sensível às mudanças climáticas, que tendem a intensificar a seca e o calor. E os insetos polinizadores, por sua vez, são um exemplo de quanto o clima está mudando no planeta.
“As abelhas vão sofrer com as altas temperaturas. Também por causa do calor, as flores em algumas partes do mundo estão abrindo em horas diferentes, em que os insetos não estão lá para polinizar”, explica a coordenadora de projetos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e coautora de uma recente pesquisa sobre a importância das abelhas para o rendimento das plantações, Nadine Azzu.
Segundo o levantamento, é necessário achar métodos para manter as abelhas trabalhando durante o ano inteiro, principalmente porque, dos 100 cultivos que proveem 90% dos alimentos no mundo, 71 são polinizados por elas.
Os apicultores de Carnaíba encontraram sua própria maneira — que consiste em preservar e tentar multiplicar as plantas da região, ensinar os demais agricultores a conviver com os insetos e aprender inclusive com os predadores naturais.
“Quando você vira apicultor, também se torna ambientalista. É preciso manter o ambiente natural e melhorá-lo mais ainda”, comenta Luiz. Se por acaso não houver alimento suficiente, os apicultores instalam nas árvores recipientes com uma mistura de mel e água limpa.
Em Carnaíba, o trabalho das abelhas tem produzido rendimentos variáveis a cada ano – 9 toneladas de mel em 2014, 8,5 toneladas em 2015 –, mas o resultado é sempre um mel bastante saboroso. Ainda há subprodutos como própolis, cera — usada nas indústrias de cosméticos e automóveis — e até uma espécie de caviar feito de mel e especiarias.
Com o apoio do Prorural, as aspirações dos apicultores vão longe. Após vender para o todo o país, “quem sabe, até exportar”, sonha Luiz.