Novo cálculo das Nações Unidas estima que atividade econômica do país vai contrair 3,4% em 2016. No início do ano, a recessão esperada era de 0,8%. Crise política, inflação e dívida fiscal elevadas e altas taxas de juros estão por trás do desempenho negativo da economia.
Brasil também é particularmente afetado por depreciação das commodities no mercado mundial e crescimento fraco da economia global. Aperto fiscal e monetário para conter inflação é tendência da América do Sul, mas pode agravar desaceleração econômica da região.

Inflação, juros e dívida fiscal provocam perda da confiança de consumidores e investidores brasileiros no cenário econômico. Foto: EBC
Crise política, inflação crescente e déficit fiscal em alta estão entre as causas de uma contração de 3,4% das atividades econômicas esperada para 2016, segundo nova avaliação das Nações Unidas publicada nesta quinta-feira (12). O índice reflete o agravamento da recessão, cuja taxa no início do ano havia sido estimada em -0,8%.
De acordo com a revisão de meados de 2016 do relatório Situação Econômica Mundial e Perspectivas 2016, o momento presente de elevação dos preços, juros e dívidas fiscais, combinado à instabilidade política, está provocando uma “deterioração aguda” da confiança de consumidores e investidores.
O consumo domiciliar tem sido afetado pelo aumento do desemprego, pela diminuição real dos salários e altos níveis de endividamento. O documento destaca que a inflação no Brasil já ultrapassou os 10%.
A análise ressalta ainda que as formações brutas de capital fixo “despencaram” devido a “cortes agressivos” em investimentos motivados por expectativas de que a demanda continuaria encolhendo e os custos de empréstimos aumentariam.
Nos últimos dois trimestres de 2015, a queda das formações de capital fixo do Brasil foi a mais alta entre as maiores economias em desenvolvimento – 18,5%.
O atual cenário levou o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU — responsável pela produção do relatório — a descrever o Brasil como estando “atolado em uma recessão mais profunda e duradoura do que o esperado”.
O crescimento da economia só deve ser retomado em 2017 e a níveis modestos (0,2%). Estimativas publicadas no início de 2016 calculavam que o país cresceria 2,3% no próximo ano. O relatório alerta, porém, que a nova e menor taxa depende de uma amenização da crise política e da estabilização da situação macroeconômica.
Contexto global ‘desanimador’ e desvalorização das commodities também afetam Brasil
A avaliação das Nações Unidas chama atenção também para as relações entre a recessão brasileira e os contextos global e regional.
Desde outubro de 2015, novas depreciações dos preços das commodities no mercado mundial contribuíram para agravar o déficit fiscal e os desequilíbrios em conta-correntes, além de desvalorizar o câmbio em países exportadores desses produtos na América Latina e Caribe e na África.
Ao lado da Nigéria, o Brasil é citado como um dos países em desenvolvimento que têm sido particularmente afetados pela queda nos lucros obtidos com a venda de commodities ao exterior. A perda de dividendos oriundos do comércio de commodities estaria associada ao desempenho “persistentemente fraco” da economia global.
Segundo o relatório, uma das consequências para o Brasil e outros países exportadores é a elevação do desemprego.
De acordo com o levantamento, a economia mundial continuará “desanimadora” em 2016 e deve registrar um crescimento de 2,4% – valor igual ao de 2015 e que representa uma queda de 0,5% em relação a previsões anteriores.
O cenário global é marcado pela demanda ainda reduzida das economias desenvolvidas – o que está retardando a retomada de níveis mais altos de expansão da atividade econômica.
Aperto fiscal na América do Sul pode ampliar a desaceleração econômica da região
A crise brasileira foi descrita como um dos principais fatores por trás da desaceleração econômica da América do Sul. A recessão no país traz consequências para diversos vizinhos, mas principalmente para Argentina, Bolívia e Paraguai.
Assim como no ano passado, a economia da América do Sul também deve entrar registrar uma contração em 2016, com uma taxa de estimada em -1,9% — a mesma de 2015.
O relatório aponta que a região em geral também está enfrentando dificuldades por conta da desvalorização das commodities no cenário mundial.
Em resposta à queda no crescimento, à elevação da inflação, à ampla depreciação de suas moedas ao longo dos últimos dois anos e à redução nos lucros com exportações, Estados sul-americanos têm adotado medidas fiscais e monetárias austeras.
O novo governo da Argentina, por exemplo, cortou subsídios à eletricidade e a Colômbia reduziu seus gastos em investimentos para 2016. Neste último país e no Paraguai, desafios internos como a inflação foram agravados por enchentes e secas associadas ao El Niño, com impacto severo sobre a produção de alimentos.
Uruguai, Venezuela e Argentina também não estão conseguindo manter o aumento dos preços abaixo das metas de seus bancos centrais.
O levantamento da ONU alerta que, embora taxas elevadas de juros possam ter reduzido a pressão sobre fluxos de capital e sobre as moedas, a postura de “aperto” terá consequências para as demandas domésticas, podendo exacerbar a desaceleração cíclica da região.
Considerando o contexto mais amplo da América Latina e o Caribe, a previsão também é de desempenho negativo (-0.6%), fazendo de 2016 o segundo ano consecutivo de recessão para a região. Esta é a primeira vez, desde a crise de 1982-83, que a região registra contração de suas atividades econômicas por dois anos seguidos.
Acesse o estudo completo da ONU, em inglês, clicando aqui.