Brexit representa risco maior para pobres britânicos, diz relator da ONU

As políticas do governo britânico e os cortes drásticos na proteção social estão gerando grandes níveis de pobreza e provocando miséria desnecessária em um dos países mais ricos do mundo, disse nesta sexta-feira (16) um especialista das Nações Unidas em direitos humanos.

“A saída iminente do Reino Unido da União Europeia apresenta um risco particular para pessoas na pobreza, mas o governo aparenta estar tratando isso como secundário”, disse o relator especial da ONU sobre extrema pobreza e direitos humanos, Philip Alston, no final de uma visita de 12 dias ao país.

Homem em situação de rua em Londres. Foto: Flickr/James Delaney (CC)

Homem em situação de rua em Londres. Foto: Flickr/James Delaney (CC)

As políticas do governo britânico e os cortes drásticos na proteção social estão gerando grandes níveis de pobreza e provocando miséria desnecessária em um dos países mais ricos do mundo, disse nesta sexta-feira (16) um especialista das Nações Unidas em direitos humanos.

“A saída iminente do Reino Unido da União Europeia apresenta um risco particular para pessoas na pobreza, mas o governo aparenta estar tratando isso como secundário”, disse o relator especial da ONU sobre extrema pobreza e direitos humanos, Philip Alston, no final de uma visita de 12 dias ao país.

Diversos estudos mostraram que a economia britânica irá piorar após o Brexit. Consequências para inflação, salários reais e preços ao consumidor irão levar mais pessoas para a pobreza, a não ser que o governo britânico adote medidas para blindar os mais vulneráveis e substituir atuais financiamentos da União Europeia, disse o especialista.

No Reino Unido, 14 milhões de pessoas, um quinto da população, vivem na pobreza. Quatro milhões destas estão mais de 50% abaixo da linha da pobreza e 1,5 milhão são necessitadas, incapazes de comprar itens básicos.

Após anos de progressos, a pobreza está crescendo novamente no país, com pobreza infantil prevista para subir 7% até 2022, falta de moradia em alta de 60% desde 2010 e bancos de doações de alimentos se multiplicando rapidamente. “No quinto país mais rico do mundo, isto não é só uma desgraça, mas uma calamidade social e um desastre econômico, tudo de uma só vez”, disse Alston.

“Durante minha visita, conversei com pessoas que dependem de doações de alimentos e caridades para a próxima refeição, que estão dormindo em sofás de amigos porque estão sem teto e não têm um lugar seguro para seus filhos dormirem, que fizeram sexo por dinheiro ou abrigo, crianças que estão crescendo na pobreza e com incerteza sobre o futuro”, disse Alston.

“Também me encontrei com jovens que sentem que gangues são a única maneira de sair da indigência e com pessoas com deficiência que são informadas que devem voltar ao trabalho ou então perder benefícios, o que vai contra ordens médicas”, disse.

Sucessivos governos lideraram o desmantelamento da rede de proteção social no Reino Unido. A introdução do crédito universal e reduções significativas na quantia e na elegibilidade de importantes formas de apoio prejudicaram a capacidade desses benefícios combaterem a pobreza. “A compaixão britânica com aqueles que estão sofrendo foi substituída por uma abordagem punitiva, egoísta e frequentemente calamitosa”.

“Sendo um benefício concedido por meio da esfera digital, o crédito universal criou uma barreira online entre pessoas com alfabetização digital deficiente e seus direitos legais”, disse Alston.

Governos locais tiveram uma redução de 49% em termos reais em financiamentos do governo desde 2010, com centenas de bibliotecas fechadas, centros comunitários e juvenis reduzidos ou subfinanciados e espaços públicos e prédios, incluindo parques e centros de recreação, vendidos.

“Falaram-me diversas vezes sobre importantes serviços públicos sendo reduzidos, sobre a perda de instituições que no passado iriam proteger pessoas vulneráveis, os serviços de auxílio social que estão em ponto de ruptura”, disse Alston. “O setor de voluntariado fez um trabalho admirável de assumir os restos destas funções do governo, mas este trabalho não alivia o governo de suas obrigações”.

“O governo se manteve em estado de negação, e ministros insistiram que tudo está bem e correndo de acordo com o planejado”, afirmou o relator da ONU. “Apesar de relutantemente terem promovido alguns ajustes às políticas, houve resistência em mudar, como resposta aos muitos problemas que muitas pessoas, em todos os níveis, levaram à minha atenção”.

Durante sua visita, o relator especial viajou para nove cidades de Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales. Alston se encontrou com pessoas afetadas pela pobreza, com membros da sociedade civil, trabalhadores e autoridades de uma série de partidos políticos em governos locais e no governo britânico.

“Políticas governamentais infligiram grande miséria desnecessariamente, especialmente nos trabalhadores pobres, nas mães que lutam contra probabilidades poderosas, nas pessoas com deficiência que já são marginalizadas, e nas milhões de crianças que estão presas em um ciclo de pobreza, do qual muitas terão grande dificuldade de escapar.”