Casal de idosos depende da ajuda humanitária para sobreviver na Ucrânia

Hanna e Oleksiy Huzovskiy não têm forças para deixar a casa onde moram. Vivendo perto da linha de frente das batalhas do conflito na Ucrânia, o casal de idosos tem problemas de saúde e depende da ajuda humanitária, que dá dinheiro para a aquisição de alimentos e remédios. São os vizinhos e profissionais de assistência que vão à rua comprar comida para o casal. “Deus não deveria permitir que alguém passasse por duas guerras em uma mesma vida”, comenta Oleksiy, que testemunhou a Segunda Guerra Mundial.

Assim como centenas de milhares de idosos em Luhansk, Hanna e seu marido Oleksiy enfrentam dificuldades financeiras e médicas desde que a guerra começou no leste da Ucrânia, em abril de 2014. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Assim como centenas de milhares de idosos em Luhansk, Hanna e seu marido Oleksiy enfrentam dificuldades financeiras e médicas desde que a guerra começou no leste da Ucrânia, em abril de 2014. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Quando os ataques começam, Hanna e Oleksiy Huzovskiy bloqueiam a porta do apartamento e aguardam no hall até os ataques passarem. O casal de idosos não tem forças para se deslocar até o abrigo antibombas. Apesar dos pedidos da filha para que deixem o local onde moram de uma vez por todas, Hanna é obstinada: “Eu disse a ela que um só vai depois que o outro morrer”.

Os idosos vivem em uma cidade nos subúrbios da capital regional de Luhansk. A área fica exatamente na linha de contato entre as partes beligerantes do conflito no leste da Ucrânia. Confrontos no país já deixaram cerca de 10 mil pessoas mortas desde o início das hostilidades, há 33 meses.

Hanna sofre de dor nas pernas e depende de uma bengala para caminhar. Já Oleksiy mal consegue andar e tem dificuldades para ouvir e enxergar.

Quase todas as noites, o som de bombardeios é ouvido pelo vilarejo. Muitas casas têm paredes furadas por fragmentos de explosivos e tábuas foram colocadas nas janelas para substituir os vidros que foram estilhaçados.

“Agora, é um local predominantemente ocupado por pessoas idosas, onde mais da metade de sua população tem mais de 60 anos”, disse a assistente de projeto da organização não governamental HelpAge, Natalia Boyko. A instituição presta assistência a cidadãos da terceira idade de todo o mundo.

Deus não deveria permitir
que alguém passasse por
duas guerras em uma mesma vida.

Em dezembro, com o financiamento da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a HelpAge entregou ajuda em dinheiro — um valor aproximado de 144 dólares por pessoa — para os idosos mais vulneráveis vivendo perto da linha de batalha.

Hanna foi uma das beneficiadas. Assim que recebeu a renda, gastou quase 30 dólares em remédios para o marido. “Nós gastamos uma de nossas duas aposentadorias somente em medicamentos”, diz. O valor de cada pensão é de 56 dólares.

O casal depende completamente dos vizinhos e profissionais humanitários, que compram comida para eles. Aos 80 anos, Hanna parou de sair depois que quase desmaiou na rua, enquanto tentava ir à farmácia em dezembro do ano passado.

Fotografias reavivam as memórias do casal de idosos, que testemunhou duas guerras: a Segunda Guerra Mundial e o conflito na Ucrânia. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Fotografias reavivam as memórias do casal de idosos, que testemunhou duas guerras: a Segunda Guerra Mundial e o conflito na Ucrânia. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Para Oleksiy, é muito difícil até mesmo andar de um cômodo para outro. Ele passa seus dias deitado na cama, afagando as gatas Sonya e Masha, ou fumando e tomando café em sua pequena cozinha.

Hanna às vezes assiste à televisão para ter notícias sobre o conflito e se lembra da Segunda Guerra Mundial, que testemunhou quando era criança. A idosa se lembra do dia em que o pai a pegou no colo pela última vez antes de ser recrutado. Em 1942, ele desapareceu em serviço.

“Deus não deveria permitir que alguém passasse por duas guerras em uma mesma vida”, lamenta Oleksiy, que também viveu a Segunda Guerra Mundial, em Volyn, região na parte ocidental da Ucrânia onde nasceu. Depois do conflito, ele estudou geologia na cidade de Drohobych, onde conheceu Hanna, que fazia um curso para se tornar costureira. Eles se casaram em um dormitório para estudantes.

A família se mudou para a região de Luhansk, no leste do país, em 1965 e se estabeleceu em Shchastya. Hanna chegou a dar aulas de design e tecnologia, enquanto Oleksiy trabalhava num grupo de prospecção geológica que procurava reservas de petróleo.

Hanna depende da ajuda de vizinhos e profissionais humanitários para comprar comida. Ela não sai mais de casa devido à dificuldades de locomoção. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Hanna depende da ajuda de vizinhos e profissionais humanitários para comprar comida. Ela não sai mais de casa devido à dificuldades de locomoção. Foto: ACNUR/Anastasia Vlasova

Trabalhar em condições climáticas rigorosas e dormir em caravanas sem aquecimento causaram os primeiros problemas de saúde do ucraniano. Seu estado piorou depois que o conflito na Ucrânia começou em 2014. Ele parou de sair, não ia nem à varanda, e ficou acamado. “Agora, não consigo nem mais enxergar uma colher na minha mão”, diz.

Oleksiy tem alguns aparelhos auditivos, mas como o único médico que pode ajustá-los de acordo com suas necessidades vive em Severodonetsk, a 70 quilômetros de distância, ele não pode usá-los. Raramente, o senhor conversa com outra pessoa que não seja a esposa. Praticamente incapaz de ver e ouvir, ele combate a depressão escrevendo poemas.

Hanna e Oleksiy vivem juntos há 56 anos e afirmam ter um casamento feliz. “Houve muita tristeza em nossas vidas. Entretanto, raramente discutimos ao longo de todos esses anos”, comenta a idosa. “Nunca guardamos ressentimentos um pelo outro por muito tempo, pois quem cuidaria de nós senão nós mesmos?”