Cerca de 535 milhões de crianças vivem em países afetados por crises, diz UNICEF

De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), cerca de 535 milhões de crianças vivem em países afetados por conflitos ou desastres, número que representa um quarto de todos os jovens do mundo. Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) também chamou atenção para os riscos enfrentados por meninos e meninas atualmente: mais da metade dos 21,3 milhões de refugiados espalhados pelo planeta é de crianças.

Em Jérémie, no Haiti, crianças brincam na Igreja Cristã Nan Lindy. Local abrigou centenas de pessoas que ficaram sem casa após a passagem do Furacão Matthew pelo país caribenho. Foto: UNICEF / LeMoyne

Em Jérémie, no Haiti, crianças brincam na Igreja Cristã Nan Lindy. Local abrigou centenas de pessoas que ficaram sem casa após a passagem do Furacão Matthew pelo país caribenho. Foto: UNICEF / LeMoyne

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) informou na sexta-feira (9) que cerca de 535 milhões de crianças vivem em países afetados por conflitos ou desastres que as impedem de ter acesso adequado a saúde, educação e proteção. O número equivale a quase um quarto do total de jovens do mundo. O alerta vem às vésperas do aniversário de 70 anos da agência da ONU, no próximo domingo (11).

Segundo dados do organismo internacional, cerca de 500 mil crianças vivem sob cerco — e sem serviços básicos — na Síria. No nordeste da Nigéria, quase 1 milhão de crianças foram forçadas a abandonar suas casas, lembra o UNICEF. E no Afeganistão, metade dos jovens em idade de frequentar a escola primária não vai ao colégio. A agência também chamou atenção para o conflito no Iêmen, cujos desdobramentos afetaram 10 milhões de meninos e meninas.

Essas são apenas algumas das regiões onde crianças vivem em um estado de emergência, explica o UNICEF, que aponta que muitos jovens ainda “estão sendo deixados para trás e excluídos por causa de seu gênero, raça, religião ou deficiência ou simplesmente porque são crianças”.

“O UNICEF foi estabelecido para levar ajuda e esperança às crianças cujas vidas e futuros estão em perigo por conta de conflitos e privações, e esse número enorme, representando as vidas individuais de meio bilhão de crianças, é um forte lembrete de que nossa missão está se tornando mais urgente a cada dia”, disse o diretor-executivo da agência da ONU, Anthony Lake.

O chefe do organismo enfatizou que, quer as crianças vivam num país em conflitou ou em paz, “seu desenvolvimento é fundamental não apenas para seus futuros individuais, mas também para o futuro de suas sociedades”.

Mais da metade dos refugiados é de crianças

Na véspera (8) do comunicado do UNICEF, o chefe do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), Filippo Grandi, lembrou em evento em Genebra que, dos 21,3 milhões de refugiados espalhados pelo planeta, mais da metade (51%) é de crianças.

“Elas estão expostas a contrabandistas e traficantes. Por estarem frequentemente desprotegidas – mesmo quando estão viajando com alguém – acabam expostas a todos os tipos de exploração. Não podemos aceitar isso. Temos que responder a essa situação e precisamos encontrar maneiras de lidar com ela”, afirmou o dirigente.

O alto-comissário lembrou que os jovens vítimas de deslocamento forçado estão vulneráveis a violência sexual e de gênero, abusos, privação da liberdade e também ao risco de se tornarem apátridas.

Um grupo de irmãos refugiados, com idades entre seis e 16 anos, posa para uma foto em Dungu, na República Democrática do Congo. Eles foram forçados a abandonar sua casa no Sudão do Sul, desacompanhados. Foto: ACNUR / Colin Delfosse

Um grupo de irmãos refugiados, com idades entre seis e 16 anos, posa para uma foto em Dungu, na República Democrática do Congo. Eles foram forçados a abandonar sua casa no Sudão do Sul, desacompanhados. Foto: ACNUR / Colin Delfosse

Grandi chamou atenção para os compromissos firmados por Estados-membros no âmbito da Cúpula da ONU sobre Refugiados e Migrantes e formalizados na Declaração de Nova York. Promessas incluem a proteção dos direitos humanos das crianças refugiadas.

O chefe do ACNUR enfatizou que a detenção de jovens para determinar seu status migratório deve ser suspensa e convocou países a registrar todos os nascimentos de crianças em seu território para prevenir e reduzir a apatridia.

Segundo o alto-comissário, nações que recebem fluxos de refugiados precisam expandir as vias legais que oferecem soluções para os problemas das crianças. Isso pode incluir o aumento das oportunidades de reassentamento e de reunificação familiar, bem como do acesso rápido à educação de qualidade.

O encontro em Genebra contou com a participação também de refugiados, entre eles, Joseph Munyambanza, de 26 anos e oriundo da República Democrática do Congo.

“É necessário empoderar os jovens refugiados para que, quando retornarem aos seus países, tenham conhecimentos e capacidade de os reconstruir. Eu acho que isso é muito importante”, disse o rapaz, que foi forçado a deixar seu país de origem aos seis anos de idade, acompanhado do irmão mais velho.

Já Laura Valencia, uma colombiana de 19 anos que teve de buscar proteção no Equador quando tinha apenas 11 anos, frisou a necessidade de ações rápidas: “Se vocês não agirem agora, vocês colocarão uma geração inteira em risco”. “Para nós, é muito importante que as decisões, as boas práticas e os comprometimentos sejam reais, mas é necessário que sejam implementados imediatamente”, acrescentou.