Profundamente alarmado com o aumento da violência em Ghouta Oriental, na Síria, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, reiterou o chamado ao fim das hostilidades para que os doentes e feridos possam ser imediatamente retirados e a ajuda humanitária possa ser entregue àqueles em necessidade.

Rua em Douma, Ghouta Oriental. Foto: UNICEF/Amer Al Shami
Profundamente alarmado com o aumento da violência em Ghouta Oriental, na Síria, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, reiterou o chamado ao fim das hostilidades para que os doentes e feridos possam ser imediatamente retirados e a ajuda humanitária possa ser entregue àqueles em necessidade.
“Aproximadamente 400 mil pessoas em Ghouta Oriental foram alvo de ataques aéreos, bombardeios”, disse o secretário-geral da ONU em comunicado emitido na segunda-feira (19) por seu porta-voz, Stephane Dujarric.
Guterres disse estar “profundamente alarmado com a escalada da situação em Ghouta Oriental e seu impacto devastador sobre os civis”, disse o comunicado, acrescentando que mais de 100 pessoas foram mortas desde segunda-feira, incluindo ao menos 13 crianças, enquanto cinco hospitais ou clínicas médicas foram atingidas por ataques aéreos.
Mais de 700 indivíduos precisam ser retirados para atendimento médico imediato. Além disso, há informações de bombardeios de Ghouta contra Damasco.
“Ghouta é parte de um acordo de cessar de hostilidades fechado em Astana”, disse o comunicado, lembrando as negociações sobre a Síria impulsionadas por Rússia, Irã e Turquia na capital cazaque.
“O secretário-geral da ONU lembra todas as partes, particularmente os garantidores dos acordos de Astana, sobre seus compromissos nesse sentido”, disse o comunicado.
O secretário-geral pede que todas as partes garantam os princípio básicos da lei humanitária internacional, incluindo o acesso humanitário, evacuações médicas incondicionais, e a proteção de civis e de sua infraestrutura, disse o comunicado.
Ajuda humanitária
Na sexta-feira (16), milhares de civis em Ghouta receberam alimentos e medicamentos depois que o primeiro comboio de ajuda humanitária em quase três meses chegou ao enclave sitiado nos arredores da capital Damasco, disse o principal oficial humanitário da ONU no país.
“Embora este acontecimento seja bem-vindo, é absolutamente insuficiente. As pessoas alcançadas representam 2,6% das 272.500 pessoas necessitadas no leste de Ghouta”, disse o coordenador humanitário para a Síria, Ali Al-Za’tari, em comunicado na sexta-feira (16).
Os suprimentos foram entregues em 14 de fevereiro. A ajuda humanitária não teve acesso à cidade sitiada por 78 dias.
No entanto, outros suprimentos, incluindo água e saneamento, material de educação e itens não alimentares como cobertores e lençóis de plástico, não tiveram autorização para serem enviados nos comboios, disse o oficial da ONU.
Alto-comissário de direitos humanos da ONU pede fim de ‘aniquilação monstruosa’
Desde que o governo sírio e seus aliados ampliaram as ofensivas contra o reduto da oposição em Ghouta Oriental em 4 de fevereiro, ao menos 346 civis morreram e 878 ficaram feridos, a maior parte em ataques aéreos que atingiram áreas residenciais, de acordo com informações documentadas pelo escritório de direitos humanos da ONU.
Noventa e duas mortes de civis ocorreram em um período de 13 horas na segunda-feira (19). Esses números podem ser ainda maiores, representando apenas aqueles casos que o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) conseguiu registrar em meio ao caos e destruição em Ghouta Oriental.
Dezenas de ataques aéreos e centenas de ataques em terra atingiram áreas residenciais em muitas partes da sitiada Ghouta Oriental na segunda (19) e na terça-feira (20), e continuaram nesta quarta-feira (21). A destruição de casas levou ao deslocamento de muitos civis em áreas onde não havia locais seguros. De acordo com as informações obtidas pelo ACNUDH, particularmente mulheres e crianças, estão vivendo em um estado de pânico, buscando abrigos subterrâneos onde ficam privados de alimentação e saneamento.
“Há centenas de milhares de civis presos por mais de cinco anos, sitiados, sofrendo privação de suas necessidades mais básicas, e estão agora enfrentando bombardeios sem cessar”, declarou.
“Quanta crueldade será necessária antes de a comunidade internacional dizer com uma só voz que já morreram crianças demais, famílias demais foram destruídas, violência demais acontece, e tomar uma ação decisiva e conjunta para acabar com essa campanha monstruosa de aniquilação”, questionou o alto-comissário da ONU para os direitos humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein.
Situação está ficando ‘fora do controle’
A situação dos civis na região de Ghouta Oriental “está ficando fora do controle”, avisou na terça-feira (20) o coordenador humanitário regional para a crise Síria, Panos Moumtzis.
O representante disse estar “profundamente alarmado com o aumento dos conflitos” na região. A violência causou mais de 40 mortes e 150 feridos apenas na segunda-feira, 19 de fevereiro.
Segundo o coordenador, centenas de civis, muitos deles mulheres e crianças, perderam as suas vidas nos bombardeios e ataques que acontecem desde novembro. Armazéns, hospitais e escolas também já foram atingidos ou destruídos.
Em Ghouta Oriental vivem 393 mil pessoas, muitas delas vindas de outros pontos do país. Calcula-se que 94% de todos os sírios que vivem em situação de cerco neste momento estejam na região.
Moumtzis diz que a falta de acesso restringe a entrega de alimentos, o que já provocou um aumento brusco no preço da comida e nas taxas de mal nutrição. O número de pessoas retiradas do local por questões médicas continua a aumentar.
O coordenador diz que a ONU “continua a pedir o acesso desimpedido, incondicional e sustentável a 3 milhões de pessoas que estão cercadas ou em zonas de difícil acesso em toda a Síria”.
Moumtzis pediu também que todas as partes “cumpram as suas obrigações perante a lei humanitária internacional, tomando todas as medidas possíveis para proteger os civis de perigos”.
Agência da ONU para migração busca US$ 194 milhões para ajudar sírios
Após quase sete anos de conflito armado na Síria, a situação humanitária continua piorando. Dentro do país, são mais de 13 milhões de pessoas que precisam de assistência. Quase 3 milhões vivem em áreas sitiadas ou onde o acesso é difícil.
Além disso, mais de 5,5 milhões de sírios buscaram refúgio nas cinco nações vizinhas: Líbano, Jordânia, Turquia, Iraque e Egito. Nesta sexta-feira (23), a Organização Internacional para Migrações (OIM) lançou um apelo financeiro.
A agência busca US$ 194 milhões para fornecer abrigo, água potável, serviços de saúde e garantir a educação das crianças neste ano. O diretor-geral da OIM, William Swing, declarou que essas ações são vitais para “garantir que os sírios tenham o apoio que precisam de forma desesperada”.
Também nesta sexta-feira (23), os chefes de várias agências da ONU divulgaram um comunicado conjunto sobre a crise síria. Eles dizem que mais do que nunca, agora é o momento de ampliar o apoio internacional aos países vizinhos à Síria e a comunidades que abrigam os refugiados.
Os chefes das agências pedem um cessar-fogo imediato, proteção dos civis e acesso humanitário a Ghouta Oriental, além da permissão para a retirada de pessoas doentes e feridas.
A nota é assinada pelo alto-comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi; pelo administrador do Programa da ONU para o Desenvolvimento, PNUD, Achim Steiner; e pelo coordenador humanitário da ONU, Mark Lowcock.
Já a porta-voz do enviado especial da ONU para a Síria reiterou o apelo de Staffan de Mistura por um cessar-fogo urgente em Ghouta Oriental. Segundo Alessandra Vellucci, o enviado vê a situação humanitária como alarmante e pede o fim “dos terríveis e pesados bombardeiros” na região e também na capital Damasco.
O Conselho de Segurança pode votar nesta sexta-feira uma resolução pedindo um cessar-fogo em Ghouta Oriental. Quase 350 pessoas foram mortas somente neste mês.