Menções em documento sobre a situação de crianças em conflitos armados foram retiradas por uma pressão “inaceitável” de Estados-membros. Ban Ki-moon descreveu decisão como uma das “mais difíceis e dolorosas” que já tomou.

Menino segura um grande pedaço de projétil que explodiu e caiu na aldeia de Al Mahjar, um subúrbio de Sanaa, capital do Iêmen. Foto: UNICEF / Mohamed Hamoud
Em pronunciamento na quinta-feira (9) sobre o recente relatório da ONU que avalia a situação de crianças em conflitos armados, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, lamentou que tenha sido pressionado a retirar do documento as menções a violações de direitos perpetradas pela coalizão da Arábia Saudita no Iêmen.
O chefe da ONU informou ter conhecimento da “resposta feroz” à sua escolha de não incluir casos associados ao conflito iemenita envolvendo os países da aliança militar. Ban Ki-moon descreveu a decisão como uma das “mais difíceis e dolorosas” que ele já teve de tomar.
É inaceitável que Estados-membros
exerçam pressão indevida.
Investigações detalhadas são uma parte natural
e necessária do trabalho das Nações Unidas.
“É inaceitável que Estados-membros exerçam pressão indevida. Investigações detalhadas são uma parte natural e necessária do trabalho das Nações Unidas”, alertou o secretário-geral.
“Ao mesmo tempo, eu também tive que considerar a perspectiva bastante concreta de que milhões de outras crianças sofreriam severamente se, conforme me foi sugerido, países deixassem de financiar muitos programas da ONU. Crianças já em risco na Palestina, Sudão do Sul, Síria, Iêmen e tantos outros lugares ficariam ainda mais desamparadas.”
Ban Ki-moon afirmou que vai avaliar as queixas contra o relatório, mas ressaltou que seu conteúdo não será alterado.
“Eu compreendo plenamente as críticas, mas gostaria também de chamar mais atenção para uma questão que diz respeito a muitos desafios políticos que enfrentamos.”
“Quando soldados de paz da ONU são atacados fisicamente, eles merecem forte apoio do Conselho de Segurança. Quando equipes da ONU são declaradas persona não grata simplesmente por fazerem seu trabalho, eles deveriam ser capazes de contar com o apoio firme dos Estados-membros”, cobrou Ban Ki-moon.
O secretário-geral destacou ainda que, quando um relatório da ONU é alvo de críticas e pressões por falar sobre temas delicados ou documentar violações da lei ou dos direitos humanos, a comunidade internacional deveria defender os mecanismos e mandatos que ela mesma estabeleceu no âmbito das Nações Unidas.
“Conforme o Secretariado leva adiante o trabalho que nos foi confiado, eu conto com os Estados-membros para que trabalhem de forma construtiva e mantenham seu compromisso para com a causa dessa organização.”
Questionado por um jornalista, o chefe da ONU disse que, durante o processo de elaboração ou disponibilização dos relatórios junto aos países, as Nações Unidas identificaram que muitas nações estão mais preocupadas com o fato de terem seus nomes listados ao lado de atores não estatais, como grupos terroristas e extremistas.
“Portanto, eu acho que a principal reação da coalizão é também quanto à inclusão e listagem dos seus nomes junto de alguns grupos terroristas e extremistas. Por isso, estamos agora em um processo de considerar quais seriam as melhores modalidades para indicar os países”, explicou o dirigente máximo das Nações Unidas, que reiterou que nenhuma decisão a respeito disso foi tomada ainda.
O relatório da ONU publicado na semana passada criticava tanto a coalizão como as forças rebeldes no Iêmen por violações aos direitos das crianças, incluindo ataques a escolas e hospitais, atribuindo à coalizão liderada pela Arábia Saudita a responsabilidade por 60% das mortes e ferimentos de crianças no país no ano passado.
No início desta semana, no entanto, a coalizão liderada pela Arábia Saudita foi retirada de um documento que é uma espécie de “lista negra” sobre direitos das crianças, decisão que foi criticada por organizações internacionais de defesa dos direitos humanos, segundo relatos da imprensa internacional.