António Guterres pediu um esforço global para resolver as tensões que, inevitavelmente, geram tragédias humanas e informou que as múltiplas crises atuais colocaram o sistema humanitário à beira da falência.

Um membro do ACNUR registra uma família síria em uma novo acampamento de refugiados em Azraq, Jordânia. Foto: ACNUR/J.Kohler/Abril 2014
Desde a Segunda Guerra Mundial o mundo não tinha tantos deslocados internos. Mais de 51,2 milhões de pessoas foram forçadas a abandonarem suas residências devido às múltiplas crises atuais, conforme revelaram os dados da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), divulgados em junho deste ano, forçando, perigosamente, o sistema humanitário global.
Preocupado com esta situação, o alto comissário da ONU para Refugiados, António Guterres pediu à comunidade internacional para repensar este status quo e buscar novos modelos para confrontar os crescentes desafios do século 21. Entre as sugestões, enfatizou a necessidade dos Estados-membros trabalharem com as partes interessadas para resolver as tensões que, inevitavelmente, geram tragédias humanitárias, lembrando que a prevenção deve ser sempre a melhor filosofia.
“Nós, humanitários, não podemos mais limpar esta confusão. Alguém deve prevenir que isso aconteça desde o começo”, pediu, durante o encontro anual do comitê executivo da agência nesta terça-feira (30), lembrando as crises na Síria, na República Centro-Africana, Sudão do Sul, Ucrânia e mais recentemente, no Iraque.
“A comunidade internacional agiu prontamente para responder a estas necessidades. No entanto, com cada nova crise, chegamos ao nosso limite de quanto mais podemos fazer e nós, claramente, não podemos mais fazer o suficiente”.
Sistema humanitário à beira da falência
Segundo Guterres, o ano de 2014 foi particularmente marcado por um “dramático” crescimento de deslocados massivos, levando o ACNUR e seus parceiros a atuarem em cinco emergências humanitárias, que exigiram ampliar as operações, enviar e recrutar mais trabalhadores humanitários e mudar equipes de uma para outra operação.
Além dos conflitos mencionados, Guterres chamou a atenção para milhares de refugiados que estão cruzando o Mediterrâneo em embarcações precárias e o aumento do número de crises “sem precedentes e interconectadas” que exigirão necessidades humanitárias cada vez maiores nos próximos anos. Dada a dimensão dessas atividades, o chefe do ACNUR lembrou que mesmo a cifra recorde de 22 bilhões de dólares angariadas em 2013 para ajuda humanitária não é suficiente para manter essa acelerada demanda.
“Isso coloca em questão a adequação e sustentabilidade dos recursos disponíveis para a resposta humanitária”, continuou. “Hoje, com as necessidades em crescimento exponencial que nós estamos vendo nos últimos três anos, o sistema financeiro humanitário está prestes a falir”.