Conflitos na Síria já causaram 93 mil mortes, alerta ONU

Chefe de direitos humanos da ONU, Navi Pillay divulgou estudo detalhado e disse que o verdadeiro número de mortos é ‘potencialmente’ muito maior. Ela disse que países ‘com influência’ poderiam ‘fazer muito mais’ para evitar mais mortes.

Chefe de direitos humanos da ONU, Navi Pillay divulgou estudo detalhado e disse que o verdadeiro número de mortos é ‘potencialmente’ muito maior. Ela disse que países ‘com influência’ poderiam ‘fazer muito mais’ para evitar mais mortes.

Mais de 6.500 crianças e adolescentes foram assassinados, segundo estudo divulgado pela ONU. Na imagem, crianças sírias no campo de refugiados de Domiz, no Iraque. Foto: : ACNUR/B. Sokol

Mais de 6.500 crianças e adolescentes foram assassinados, segundo estudo divulgado pela ONU. Na imagem, crianças sírias no campo de refugiados de Domiz, no Iraque. Foto: : ACNUR/B. Sokol

Uma análise atualizada realizada por especialistas em dados para o escritório de direitos humanos da ONU levou à elaboração de uma lista de 92.901 casos documentados de pessoas mortas na Síria entre março de 2011 e o final de abril de 2013, anunciou nesta quinta-feira (13) a chefe de direitos humanos da ONU, Navi Pillay.

“O fluxo constante de assassinatos continua em níveis surpreendentemente elevados, com mais de 5 mil assassinatos documentados todos os meses desde julho do ano passado, incluindo um total de pouco menos de 27 mil novas mortes desde primeiro de dezembro”, disse Pillay.

“Infelizmente, como o estudo indica, este é provavelmente o valor mínimo de vítimas. O verdadeiro número de mortos é potencialmente muito maior.”

O mais recente estudo – que atualiza um anterior que compilou cerca de 60 mil mortes documentadas até 30 de novembro de 2012 – foi realizado utilizando uma lista combinada de 263.055 mortes relatadas, totalmente identificadas com o nome da vítima, bem como a data e o local da morte.

Qualquer assassinato relatada que não incluiu pelo menos estes três elementos foi excluído da lista, que foi compilada usando conjuntos de dados a partir de oito diferentes fontes.

Cada morte foi avaliada em comparação com todas as outras mortes relatadas, a fim de identificar os duplicados.

A análise utilizou classificações manuais e um modelo estatístico chamado ‘árvore de decisão’ para identificar os registros duplicados. Depois de reunir as duplicatas, o conjunto de dados combinado foi reduzido para 92.901 registros exclusivos de mortes relacionadas com o conflito, até 30 de abril 2013.

Os estatísticos que produziram o relatório observaram que, apesar da possibilidade de algumas mortes duplicadas ou erroneamente relatadas terem sido incluídas, este total provavelmente subestima o número real de mortes.

Esta conclusão baseia-se no fato de 37.988 mortes relatadas contendo informação insuficiente terem sido excluídas da análise, além de existir uma forte probabilidade de que um número significativo de mortes não tenha sido avaliado por nenhuma dos oito fontes.

A análise mostra um aumento dramático no número médio mensal de assassinatos documentados desde o início do conflito, a partir de cerca de mil por mês no verão de 2011 para uma média de mais de 5 mil por mês, desde julho de 2012 – durante o período de pico a partir de julho a outubro de 2012, o número ultrapassou 6 mil por mês.

‘Padrão de deterioração drástica do conflito’

“Esta taxa extremamente alta de assassinatos, mês após mês, reflete o padrão de deterioração drástica do conflito em relação ao ano passado”, disse Pillay.

“Como claramente indicado no último relatório da Comissão de Inquérito sobre a Síria, os civis estão arcando com o ônus de ataques generalizados, violentos e muitas vezes indiscriminados que estão destruindo as principais vilas e cidades, bem como aldeias periféricas. As forças do governo estão lançando ataques aéreos sobre áreas urbanas dia a dia, e também estão usando mísseis estratégicos e de fragmentação e bombas termobáricas”, alertou Pillay.

Navi Pillay, chefe de direitos humanos da ONU. Foto: ONU

Navi Pillay, chefe de direitos humanos da ONU. Foto: ONU

“Forças de oposição também têm bombardeado áreas residenciais, embora com menos poder de fogo, e já houve várias explosões que resultaram em mortes no coração das cidades, especialmente Damasco”, acrescentou

Embora o estudo destaque que a precisão de padrões geográficos pode ser afetada por relatos variáveis de diferentes fontes de dados, ele mostra que o maior número de assassinatos documentados ocorreu nas províncias de Damasco Rural (17.800), Homs (16.400), Aleppo (11.900) e Idlib (10.300), seguido por Daraa (8.600), Hama (8.100), Damasco (6.400) e Deir ez-Zor (5.700).

Os maiores aumentos desde novembro de 2012 foram registrados em Damasco e Aleppo Rural, com 6.200 e 4.800 novas mortes documentadas, respectivamente. Um total de mais de mil mortes foram documentadas em outras seis províncias desde novembro de 2012.

Cerca de 82,6% das vítimas documentadas até agora são homens, enquanto 7,6% são mulheres. O gênero da vítima não é indicado em 9,8% dos casos.

Mais de 6.500 crianças e adolescentes assassinados

A análise não foi capaz de diferenciar de forma consistente entre combatentes e não-combatentes, e cerca de três quartos das mortes relatadas não registram a idade da vítima.

No entanto, “os assassinatos de pelo menos 6.561 menores, incluindo pelo menos 1.729 crianças com menos de 10 anos de idade, foram documentados”, disse Pillay.

“Há também casos bem documentados de crianças sendo torturadas e executadas, e famílias inteiras, incluindo bebês, sendo massacradas – que, junto com este preço devastadoramente elevado de mortes, é um terrível lembrete de quão cruel o conflito se tornou.”

“Exorto as partes a declarar um cessar-fogo imediato diante de dezenas de milhares de pessoas que são mortas ou feridas”, declarou Pillay, por meio de um comunicado.

“Ninguém está ganhando coisa alguma com este massacre sem sentido. E os Estados com influência poderiam, se agissem coletivamente, fazer muito mais para levar o conflito a um fim rápido, economizando incontáveis vidas mais. A única resposta é uma solução política negociada. Tragicamente, vergonhosamente, nada vai restaurar as 93 mil ou mais vidas já perdidas.”