Confrontos sectários deslocam milhares no sudeste da República Centro-Africana, alerta ONU

Conflito de fundo religioso em Zémio, cidade perto da fronteira da RCA com a República Democrática do Congo, é o primeiro visto na região desde que a crise teve início no país, em dezembro de 2012.

Acampamento de deslocados internos em Zémio, Haut Mbomou, na República Centro-Africana (RCA). Foto: OCHA/Lauren Paletta

Acampamento de deslocados internos em Zémio, Haut Mbomou, na República Centro-Africana (RCA). Foto: OCHA/Lauren Paletta

Um surto de ataques violentos nesta semana entre comunidades em uma cidade perto da fronteira da República Centro-Africana (RCA) com a República Democrática do Congo (RDC) deixou pelo menos 10 pessoas feridas e milhares deslocadas, marcando o primeiro grande incidente intercomunitário na região desde que a crise do país teve início, em 2012.

O alerta foi dado pelo escritório de ajuda humanitária das Nações Unidas nesta sexta-feira (21).

Em uma coletiva de imprensa em Genebra, a ONU destacou que nos dias 17 e 18 de novembro ataques entre comunidades em Zémio, uma cidade no sudeste da República Centro-Africana (RCA), na província de Haut Mbomou, deixou cerca de 80% dos 16 mil habitantes deslocados e em busca de proteção.

Jens Laerke, porta-voz do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), disse a jornalistas que, segundo as autoridades locais, pelo menos 10 pessoas ficaram feridas, duas delas gravemente, incluindo uma autoridade religiosa.

A situação continua tensa e homens fortemente armados com armas de fogo, facões, facas, arcos e flechas estão na cidade, observou o porta-voz.

A crise em Zémio, que tem uma comunidade mista de cristãos e muçulmanos, começou após o assassinato de um membro de uma das comunidades no dia 5 de novembro, relatou Laerke. O assassinato desencadeou ataques de retaliação, incluindo a queima de mais de 30 casas nas aldeias de Barh e Bogou, localizadas a cerca de 40 quilômetros de Zémio. Granadas e armas automáticas foram usadas nos ataques, disse o porta-voz.

Desde o início da crise na RCA, observou o porta-voz da ONU, a cidade de Zémio não havia sido afetada pela violência intercomunitária.

Na quarta-feira (19), uma missão de avaliação conjunta da ONU, com a participação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), constatou que há diversas pessoas precisando de abrigo, água potável, serviços de saúde e saneamento adequado, disse Laerke.

Respondendo a perguntas da imprensa, Laerke disse que o que tinha acontecido veio como uma surpresa para as pessoas que trabalham na área, uma vez que a região não havia sido afetada pela violência vista em outras partes do país.

Milhares de pessoas foram mortas na RCA como resultado de um conflito que eclodiu quando os rebeldes Séléka, de maioria muçulmana, lançaram ataques em dezembro de 2012. A violência tem tomado desde então uma conotação cada vez mais sectária.