‘O mundo está hoje convencido de que nem todo crescimento pode ser considerado desenvolvimento; e de que o futuro da humanidade depende de rigoroso equilíbrio entre desenvolvimento econômico, social e ambiental. A consistência do movimento cooperativista, sua capacidade de enfrentar as crises e sobreviver a elas, tendo que se adaptar às diferentes circunstâncias, chamou a atenção do mundo para a sua importância.’
Por Hélder Muteia, Representante da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) no Brasil (*).
“Na semana em que se comemora o Dia Mundial da Alimentação, a proclamação de 2012 como o ano internacional de cooperativas, pelas Nações Unidas, demonstra os esforços recentes da comunidade internacional, da sociedade civil e dos governos em traçar novos rumos e paradigmas para o desenvolvimento.
A ideia de desenvolvimento coletivo é intrínseca à natureza humana, e sempre esteve presente em diversas manifestações da vida econômica, social e cultural. Essa inata predisposição em partilhar recursos, conhecimentos, objetivos e valores foi, nas comunidades mais primitivas, a garantia de sobrevivência da espécie humana. Só com a união de esforços as fragilidades eram compensadas. Com ela, nos primórdios da humanidade era possível enfrentar predadores, pragas e desastres, consolidar conhecimentos e criar um sistema de transferência de experiências e tecnologias de uma geração para outra.
O modelo de desenvolvimento segundo o qual a competição e o lucro ofereciam melhor incentivo ao empreendedorismo fez com que, ao longo dos séculos, o cooperativismo passasse por crises sistemáticas que puseram em risco a sua sobrevivência. Contra todas as vicissitudes, ele sobreviveu, servindo de alternativa prática e simples para os mais vulneráveis, quer fossem produtores individuais ou comunidades tradicionais.
Mesmo condenado à clandestinidade, em alguns contextos, o movimento cooperativista se expandiu e conta hoje com cerca de 800 milhões de membros, espalhados pelo mundo inteiro, nas mais diversas áreas de desenvolvimento econômico, social, cultural e, mais recentemente, ambiental. Tal como no passado, essa forma de organização ajuda as pessoas a suprirem as suas carências de recursos básicos, como a terra, a água, matérias-primas, crédito e tecnologia; enfrentar as crises de acesso ao mercado; e suprir as necessidades de infraestrutura.
O complexo mundo das cooperativas oferece exemplos tão diversificados, desde cooperativas para produção de sementes na Tanzânia, de comercialização em Moçambique, de armazenagem de grãos no Quênia, de irrigação na Índia, de lavoura no Vietnã, de produção de leite na Noruega, na Nova Zelândia e nos Estados Unidos, e de processamento no Brasil e no Uruguai. Uma gama variada de iniciativas, em diferentes contextos e condições, que garante a subsistência de muitas famílias.
Muitas cooperativas surgiram da necessidade dos pequenos produtores se defenderem da avalanche das grandes corporações; contra a quase inexorável força do monopólio. Exemplos disso são as cooperativas de processamento, comercialização, de crédito e microcrédito.
O mundo está hoje convencido de que nem todo crescimento pode ser considerado desenvolvimento; e de que o futuro da humanidade depende de rigoroso equilíbrio entre desenvolvimento econômico, social e ambiental. A consistência do movimento cooperativista, sua capacidade de enfrentar as crises e sobreviver a elas, tendo que se adaptar às diferentes circunstâncias, chamou a atenção do mundo para a sua importância.
Hoje, as cooperativas são detentoras de extenso capital social. Ao mesmo tempo que têm demonstrado bom desempenho econômico, sempre demonstraram forte compromisso com a sustentabilidade ambiental, como “bem comum” intrínseco à sua natureza e essência. É esse sistema de valores, princípios e práticas que chama a atenção do mundo, agora que urge adotar novos modelos de desenvolvimento para enfrentar crises ambientais e sociais.
As cooperativas são movidas por interesses comuns, igualdade de direitos, deveres e responsabilidades. Nessa base, elas estimulam a geração de empregos e outras fontes de rendimento, contribuindo de forma objetiva para a redução da pobreza, para a equidade de gênero e para a integração social. Os mesmos valores e princípios podem ser de grande valia para a dignificação da pessoa humana e para a preservação dos recursos naturais em um mundo mais sustentável.
No Brasil, o movimento cooperativo tem longa história de sucesso e um dinamismo peculiar, o que ajuda a criar o quadro ideal para desenvolver o tema e chamar a atenção de todos para a contribuição singular que as cooperativas podem dar ao mundo.
O tema escolhido para celebrar o ano internacional das cooperativas é: Empresas cooperativas ajudam a construir um mundo melhor. Pode-se notar que esse mesmo ideal moveu a Rio+20 e continua a mover todas as esferas (governo, sociedade, terceiro setor…). O objetivo disso tudo é construir uma realidade cada dia mais sustentável. É, portanto, um momento privilegiado para abordar o papel do cooperativismo no contexto da sustentabilidade como um todo.”
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(*) Artigo publicado no jornal Correio Braziliense no dia 17 de outubro de 2012.