Costa do Marfim: Especialista independente da ONU afirma estar preocupado com fragmentação política

Para Doudou Diène, que apresentou relatório ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, uma ‘justiça equitativa’ está no centro tanto da reconstrução democrática quanto da reconciliação nacional.

Missão da ONU na Costa do Marfim realiza operação de desarmamento voluntário em Abobo, subúrbio no norte de Abidjan. Foto: UNOCI/Macline Hien

Missão da ONU na Costa do Marfim realiza operação de desarmamento voluntário em Abobo, subúrbio no norte de Abidjan. Foto: UNOCI/Macline Hien

“Embora a base da reconstrução democrática na Costa do Marfim esteja posta e a recuperação social e econômica em curso, o país está enfrentando uma profunda fragmentação política”, disse nesta quarta-feira (12) o especialista independente da ONU Doudou Diène, durante a apresentação de seu relatório na 23ª sessão do Conselho de Direitos Humanos.

Ele destacou que a construção de uma democracia inclusiva, apoiada por justiça equitativa, manteve-se como um dos principais desafios para a saída sustentável da crise.

“A justiça está no centro tanto da reconstrução democrática quanto da reconciliação nacional. É um elemento essencial para o retorno do Estado de Direito e da confiança da população da Costa do Marfim”, disse Diène, reconhecendo os esforços por parte das autoridades para reforçar o sistema de justiça.

O especialista disse que a situação dos detidos, em especial os ligados à crise pós-eleitoral, manteve-se uma questão crucial. A recente decisão de transferir para a capital financeira e maior cidade do país, Abidjan, presos de alto perfil – incluindo Simone Gbagbo, por razões médicas – era um sinal de abertura e merecia ser destacado.

No entanto, Diène observou que a “consideração para o direito à saúde dos detentos deve ser acompanhada de seu direito de ser defendido, para serem julgados ou libertados”.

Sobre o tema da reconciliação, o perito sugeriu que o mandato da Comissão Nacional de Diálogo, Verdade e Reconciliação deve ser estendido para além de setembro de 2013. Esta extensão – argumentou – pode permitir que a Comissão finalize as atividades programadas em seus termos de referência.

Em seu relatório ao Conselho de Direitos Humanos, o perito independente também notou a “necessidade urgente de a Costa do Marfim trabalhar em prol da paz e da estabilidade social a partir da perspectiva de um clima favorável ao investimento e ao progresso econômico e social necessário para satisfazer o básico necessidades da população”.

“A Costa do Marfim se beneficiou de significativa prosperidade econômica. No entanto, o impacto social desse crescimento ainda é esperado na vida diária dos marfinenses”, disse Diène.

Seu relatório foi elaborado após a conferência internacional sobre a impunidade e a justiça equitativa, realizada por iniciativa do perito, em fevereiro de 2013 na capital administrativa e política Yamoussoukro, bem como com base em na visita que realizou ao país entre os dias 28 de abril e 4 de maio deste ano.

O documento é o resultado de várias reuniões e consultas com representantes do governo, partidos políticos, sociedade civil, corpo diplomático e os parceiros de desenvolvimento da Costa do Marfim, incluindo a missão da ONU no país.