Um menino eritreu de 10 anos sobreviveu a travessias no deserto e no oceano para chegar à Europa. Entretanto, sua esperança de se reunir com sua tia na Holanda parece cada vez mais distante. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).
Solomon* tinha apenas 10 anos quando foi forçado a fugir de sua casa na Eritreia. Agora, aos 14, vive há meses nas instalações de um centro de acolhimento de refugiados em trânsito. Ele é uma das cerca de 11,4 mil crianças desacompanhadas que chegaram à Itália pelo mar desde janeiro de 2016. Muitos enfrentam abusos em sua jornada, inclusive sexuais e de gênero, além de atos de violência psicológica e física.
Quando atravessou o Sudão e a Líbia na esperança de chegar à Europa, Solomon foi explorado por contrabandistas. “Fomos vendidos no Saara e depois novamente na Líbia, onde ficamos por sete meses”, contou. “Foi muito, muito difícil. Você pensa em desistir de sua vida. Eles nos fazem pagar muito dinheiro. Uma pessoa te compra e, em seguida, outra te vende”.
Na Líbia, ficou retido por contrabandistas por um mês, vivendo em um quarto com outros refugiados e migrantes. Recebia pouca comida e era agredido todos os dias. Quando finalmente embarcou em um bote para a Itália, foi amontoado junto a centenas de outras pessoas. “Havia 900 pessoas no bote”, lembrou. “Zarpamos à noite. Foi muito difícil, o mar estava revolto, as pessoas se agrediam, algumas morreram, por ansiedade ou pelas agressões”.
Após dois dias no mar, o barco de Solomon foi resgatado e levado à Itália. Ele foi então conduzido para um centro comunitário para crianças desacompanhadas, onde espera até hoje se reunir com sua tia na Holanda.
“Crianças não deveriam se expor a esses tipos de risco”, disse Stephane Jaquemet, representante regional da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) para o sul da Europa. “O processo de reunião familiar entre fronteiras precisa melhorar, não apenas para impedir esses perigos, mas também para restabelecer a esperança e a confiança em crianças como Solomon”.
Um relatório publicado pelo ACNUR aponta que diversas pessoas como Solomon fazem essa desesperada e perigosa jornada, em parte, devido à falta de alternativas legais e seguras.
O estudo concluiu que, ainda que o número total de travessias no Mediterrâneo tenha caído bruscamente no primeiro semestre deste ano em comparação ao mesmo período de 2016, a probabilidade de morte entre as pessoas que tentam chegar à Europa ainda é alarmantemente alta.
O relatório estima que cerca de 2.253 pessoas tenham morrido ou desaparecido no mar nesse período, e que ao menos 40 pessoas tenham perdido suas vidas em rotas terrestres em fronteiras europeias ou em áreas próximas. Como a maior parte das pessoas viaja de forma clandestina, é difícil confirmar esta informação, e estas estimativas são consideradas moderadas. Violência e abusos ao longo da jornada, particularmente na Líbia, são frequentes.
O ACNUR tem solicitado aos países para simplificar os procedimentos demasiadamente longos e morosos para as pessoas que querem se reunir com seus familiares. A agência também está encorajando os países a otimizar o tempo de realocação na Itália para solicitantes de refúgio elegíveis.
Apesar do alto número de solicitantes de refúgio elegíveis, assim como Solomon, apenas alguns poucos e isolados casos de realocação de menores na Itália foram bem-sucedidos. Para solucionar essa situação, são necessárias medidas específicas para crianças desacompanhadas, além de um compartilhamento de responsabilidade mais efetivo e mais solidariedade entre os países-membros da União Europeia.
“Tomar medidas para reduzir o número de refugiados e migrantes que estão chegando na Europa, sem ao mesmo tempo promover processos de paz e desenvolver caminhos seguros, é moralmente inaceitável”, disse o alto-comissário da ONU para refugiados, Filippo Grandi, em comunicado.
*O nome foi alterado para proteger o entrevistado.