Agência da ONU precisa de 3 milhões de dólares para ajudar 55 mil pessoas nos próximos seis meses com itens de ajuda emergencial. Número de deslocados dobrou desde setembro e chega a 394 mil.

Espaço do UNICEF na área para deslocados na missão católica de Bossangoa, na RCA. Foto: OCHA/Laura Fultang
Com o crescente aumento nos deslocamentos na República Centro-Africana (RCA) e a diminuição da ajuda financeira às agências da ONU no país, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) anunciou na terça-feira (29) que, nas próximas semanas, não terá recursos suficientes para suprir as necessidades emergenciais da população.
“Onde quer que as nossas equipes móveis vão, encontram mais pessoas deslocadas pela violência”, disse o coordenador para emergências do UNICEF na RCA, Bob McCarthy. Desde setembro deste ano, o número de pessoas forçadas a fugir de suas casas quase dobrou e há uma estimativa de 394 mil deslocados atualmente.
O agricultor de 31 anos, Jean-de-Dieu, chegou com a mulher e os cinco filhos a um abrigo para deslocados em Bossangoa há dois dias e está dormindo em um local improvisado pela agência da ONU.
“Nós nos sentimos mais seguros aqui do que no mato. Nossas cabanas foram incendiadas e os nossos animais foram roubados. Fugimos com nada, exceto alguns potes e folhas de mandioca”, contou.
O UNICEF precisa urgentemente de 3 milhões de dólares em fundos adicionais para itens de ajuda emergencial, como cobertores, mosquiteiros, enlatados e sabão para 55 mil pessoas deslocadas internamente no país ao longo dos próximos seis meses.
Desde agosto, mais de 44 mil pessoas desalojadas receberam lonas de plástico, cobertores, mosquiteiros, galões, kits de higiene e sabão com o apoio da agência.
Entenda a crise na República Centro-Africana
Assolada por décadas de instabilidade e conflito, o país assistiu a uma retomada da violência em dezembro do ano passado, quando a coalizão rebelde Séléka lançou uma série de ataques contra o governo.
Em janeiro, eles assinaram um acordo que paz que foi quebrado em março, quando os rebeldes tomaram a capital Bangui e forçaram o presidente François Bozizé a fugir.
Existe agora um governo de transição liderado pelo primeiro-ministro, Nicolas Tiangaye, encarregado de restaurar a lei e a ordem, abrindo o caminho para eleições democráticas.
No entanto, os confrontos armados no nordeste do país têm aumentado desde o início de agosto, fazendo com que os centro-africanos enfrentem uma terrível crise humanitária que afeta toda a população de cerca de 4,6 milhões de pessoas.
Além disso, há relatos contínuos de graves violações dos direitos humanos desde que a coalizão Séléka tomou o poder em março, incluindo o assassinato deliberado de civis, atos de violência sexual contra mulheres e crianças e a destruição e pilhagem de propriedades, incluindo hospitais, escolas e igrejas.
Insegurança e ausência de serviços de educação e saúde são os maiores problemas
De acordo com o diretor de operações do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), John Ging, o maior problema do país hoje é a insegurança. Segundo ele, grupos armados de ambas as comunidades muçulmanas e cristãs estão violentando inocentes civis de ambos os lados.
Outras dimensões da crise incluem a falta de escola para as crianças e adolescentes, uma vez que mais da metade das instituições foram ocupadas, e recursos maciços para pessoas deslocadas, incluindo abrigo, água, saneamento e falta de infraestrutura para serviços públicos.
“Nossa mensagem é que a comunidade internacional precisa prestar atenção ao país. A escala do sofrimento humano é uma das piores do mundo e só está deteriorando. Estamos muito, muito preocupados com o que está acontecendo agora em termos de ataques a comunidades e o que isso significará em termos de tensão intercomunitária e perspectivas de mais violência”, disse Ging.
Ele acrescentou que, enquanto não há nenhuma dúvida sobre o compromisso do governo de transição de enfrentar a situação, as autoridades não têm a capacidade nem os recursos para melhorar o cenário caótico do país.