Conflitos internos já duram três anos, afetando a produção de alimentos do meio rural no país africano, onde 75% dos cidadãos dependem da agricultura. Insegurança alimentar é considerada extrema e metade dos centro-africanos passa fome. FAO e o Programa Mundial de Alimentos prestam assistência à população, mas seus orçamentos estão subfinanciados.

Metade da população centro-africana passa fome devido à intensificação de conflitos internos, desde setembro de 2015. Foto: ACNUR / H. Caux
Há três anos imersa numa violenta crise interna, a população da República Centro-Africana enfrenta uma insegurança alimentar considerada ‘extrema’ pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA). Em 2015, a produção das safras foi 57% menor que a média de 2012, levando metade dos centro-africanos a passar fome.
No ano passado, a agricultura produziu 838.671 toneladas de alimentos, cerca de 1 milhão de toneladas a menos do que os números registrados antes da crise. Desde setembro de 2015, o recrudescimento dos conflitos agravou a escassez de comida, elevando os preços de alimentos de primeira necessidade.
Os valores de amendoins ricos em proteína e da farinha de trigo aumentaram cerca de 74 e 28%, respectivamente, em relação a números de 2012. Em outubro de 2015, o preço da carne havia quase dobrado e o do peixe, aumentado 70%, também em comparação com o mesmo ano.
Mortes e pilhagens em propriedades rurais levaram o número de cabeças de gado a ser reduzido quase pela metade. A população de cabras e ovelhas encolheu 57%.
As agências da ONU calculam que o poder de consumo dos centro-africanos foi reduzido em um terço, ao longo do ano passado. Uma pesquisa revelou que 67% dos indivíduos teriam consumido menos alimentos em 2015 do que em 2014.
“Os últimos números são uma causa de preocupação não apenas porque as pessoas pulam refeições e reduzem suas porções, mas também porque elas optam por alimentos menos nutritivos que fornecem bem menos proteínas e vitaminas do que elas precisam”, disse o representante nacional da FAO, Jean-Alexandre Scaglia.
“Cerca de 75% das pessoas na República Centro-Africana dependem da agricultura e, com a estação de plantio começando em menos de dois meses, impulsionar a agricultura agora é crucial para revitalizar a economia e para a estabilidade no país.”
FAO e PMA prestam assistência para fortalecer produção agrícola do país
Desde o início da crise na nação africana, as agências da ONU têm procurado mitigar os impactos negativos dos confrontos sobre a segurança alimentar.
Em 2015, a FAO doou sementes e ferramentas para mais de 170 mil propriedades, que produziram 40 mil toneladas de produtos agrícolas e beneficiaram, diretamente, cerca de 854 mil pessoas. A estratégia da Organização deve continuar em 2016 e auxiliar 95 mil famílias de agricultores. A falta de verba, no entanto, é um obstáculo. Até agora, apenas metade dos 86 milhões de dólares solicitados pela agência foram angariados.
A iniciativa da FAO contribuiu para tornar as famílias e domicílios rurais menos dependentes da assistência humanitária, consolidando seus meios de subsistência. O PMA apoiou a estratégia e ofereceu comida para mais de 65 mil famílias de fazendeiros, evitando que agricultores consumissem suas sementes para se alimentar em vez de utilizá-las nas plantações.
O Programa Mundial de Alimentos também prestou assistência alimentar a cerca de 900 mil pessoas através de outras atividades, como o fornecimento de refeições escolares. Ao longo do ano passado, a FAO realizou parcerias com o governo do país, promovendo a vacinação de animais da pecuária e ajudando as autoridades a reestabelecer suas provisões de sementes.
Estimado em 89 milhões de dólares, o orçamento do PMA também está subfinanciado pela metade. Com o dinheiro, o Programa espera atender, até julho de 2016, às necessidades urgentes de 1,4 milhão de centro-africanos vivendo na República e em nações vizinhas que abrigam refugiados.