Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), para alcançar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) é necessária uma transição para modelos de agricultura e de produção sustentáveis, estilos de alimentação saudável e políticas que assegurem o direito à alimentação das pessoas, mudanças profundas que requerem o apoio legislativo necessário.

Menina em Guaribas, no sul do Piauí, cidade escolhida para lançar o programa Fome Zero em 2003 no Brasil. Foto: Agência Brasil
O compromisso político para acabar com a fome na América Latina e no Caribe esteve no centro do curso “Fome Zero: é possível”, organizado em El Escorial (Espanha) pela Universidade Complutense de Madrid (UCM) junto à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
O evento teve a participação da rainha Letícia, da Espanha, que também é embaixadora especial para a nutrição. Ela lembrou na ocasião a importância não apenas de lutar contra a fome, como também de garantir uma alimentação adequada, e questionou o papel da indústria agrícola e alimentícia nesse cenário.
O curso, que ocorreu de 27 de junho a 1º de julho, também teve a participação de Guadalupe Valdez, ex-coordenadora da Frente Parlamentar contra a Fome e deputada dominicana, e Ferrán Montesa, diretor da sucursal espanhola da revista Le Monde Diplomatique.
Valdez afirmou que erradicar a fome passa por criar um marco legal com as políticas públicas e os recursos necessários, sendo responsabilidade do Estado, independentemente da ideologia política do governo.
Nesse sentido, destacou o sucesso da América Latina e do Caribe na redução da fome, graças à implementação de um processo participativo baseado em um diálogo contínuo entre os diferentes setores e países. Segundo Montesa, os movimentos sociais surgidos nos anos anteriores resultaram em governos sociais que contribuíram para a erradicação da fome.
Enrique Yeves, diretor do curso, disse por sua vez que o exemplo da América Latina e do Caribe demonstra que acabar com a fome é factível, mas as estratégias desenvolvidas na região não podem ser extrapoladas para outros países, pois é necessário considerar as particularidades de cada contexto.
A atividade também abordou a relevância dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), por serem pioneiros em estabelecer uma agenda global, que não só envolve os países em desenvolvimento, como era o caso dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM). Também foi mencionada a amplitude dos ODS, cuja meta é erradicar a fome, no lugar de se conformar com uma redução.
O encontro tratou ainda da questão das causas da insegurança alimentar e do enfoque no direito à alimentação, assim como o papel dos meios de comunicação. O encerramento do curso esteve a cargo do diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, que expôs um olhar histórico sobre a erradicação da fome.
Erradicação da fome até 2025
A principal ferramenta com a qual se busca a erradicação da fome em 2025 é o Plano de Segurança Alimentar, Nutrição e Erradicação da Fome da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), criada pelos países da região com o apoio técnico da FAO, da Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), e a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL).
A América Latina e o Caribe alcançaram em 2015 a meta de reduzir para a metade a proporção de pessoas subalimentadas, estabelecida no primeiro ODM. A região foi pioneira ao propor, não apenas a mera redução, mas a total erradicação da fome através da Iniciativa América Latina e Caribe sem Fome 2025 (ILALCSH).
Segundo a FAO, alcançar os ODS requer uma transição para modelos de agricultura e de produção sustentáveis, estilos de alimentação saudável e políticas que assegurem o direito à alimentação das pessoas, mudanças profundas que requerem o apoio legislativo necessário.
Nas palavras de Raúl Benítez, representante da FAO para América Latina e Caribe, “o que diferencia a América Latina e o Caribe é o nível de compromisso político que existe com a segurança alimentar, que se expressa em uma diversidade de estratégias e políticas públicas focadas nas populações vulneráveis”.
Rainha Letícia, embaixadora especial para a nutrição
Na 39ª Conferência da FAO, que ocorreu em junho do ano passado em Roma, a rainha Letícia da Espanha foi nomeada embaixadora especial para a nutrição.
“A essa altura do século temos a capacidade técnica para produzir alimentos saudáveis e suficientes para todos. Onde devemos agir é na mobilização de vontades”, afirmou na cerimônia de nomeação. Nesse sentido, defendeu uma ação coletiva que envolva governos, setor privado, sociedade civil e indivíduos.
O cargo de embaixadora reconhece seu compromisso pessoal por um mundo sem fome, assim como os esforços da Espanha na promoção da segurança alimentar e nutricional no mundo. Além disso, a trajetória da rainha Letícia caracteriza-se por uma inclinação especial pela pesquisa científica em favor de saúde, educação e inovação.