Deslocamento de milhares de pessoas no norte de Darfur preocupa ONU

Segundo coordenadora humanitária da ONU no Sudão, mais de 87 mil pessoas estão internamente deslocadas apenas no estado de Darfur do Norte. ONU pede acesso imediato a Darfur Central, onde também há relatos de recentes conflitos. Entenda nesta matéria o conflito e a atuação da ONU na região.

Mulheres e crianças deslocadas por conflitos de Jebel Marra, em Darfur do Norte, se abrigam em Tawilla, próximo a um campo de pessoaas deslocadas. Foto: OCHA

Mulheres e crianças deslocadas por conflitos de Jebel Marra, em Darfur do Norte, se abrigam em Tawilla, próximo a um campo de pessoaas deslocadas. Foto: OCHA

A principal autoridade humanitária das Nações Unidas no Sudão disse nesta quarta-feira (24) que está profundamente preocupada com a situação dos mais de 85 mil civis recém deslocados no estado de Darfur do Norte. Eles fugiram de suas aldeias nos últimos dias como resultado de uma escalada do conflito na região de Jebel Marra.

A coordenadora humanitário da ONU para o Sudão, Marta Ruedas, informou por meio de um comunicado de imprensa que visitou nesta semana Tawilla, próximo de Jebel Marra, onde mais de 22 mil pessoas – a maioria mulheres e crianças – têm se reunido nas últimas semanas ao lado de um campo já existente para as pessoas deslocadas.

“Vendo centenas de mulheres e crianças em Tawilla e falando com as autoridades locais, constatamos que os civis continuam suportando o peso do conflito a cada dia e sua proteção é a nossa preocupação primordial”, disse Ruedas.

A ONU, juntamente com as organizações internacionais, nacionais e a Sociedade do Crescente Vermelho sudanesa, está prestando assistência aos necessitados. O fluxo intenso de recém-chegados nos últimos dias, no entanto, tem “colocado uma pressão sobre o que era uma operação já logisticamente complexa”, disse a funcionária da ONU.

Ruedas também disse que um comboio de 11 caminhões deixaram El Fasher no último dia 23 com mais ajuda – incluindo alimentos – para Sortony, onde estão mais de 63 mil pessoas recém-deslocadas que se refugiam ao lado de um local de proteção da ONU.

Até o momento, as Nações Unidas e os seus parceiros não conseguiram acesso a locais-chave supostamente afetados pelo deslocamento civil em Darfur Central, apesar dos relatos de movimentos em larga escala de pessoas e a necessidade potencial de ajuda de emergência.

A representante da ONU pediu acesso imediato a todas as pessoas necessitadas, de modo estas possam receber a assistência humanitária que necessitam. Ruedas instou, em particular, todas as partes em conflito a permitir que a ONU e os seus parceiros alcancem as pessoas deslocadas em Darfur Central.

Segundo dados do dia 20 de fevereiro, há atualmente 22.261 pessoas recentemente deslocadas em Tawilla e 63.223 pessoas recentemente deslocadas em Sortony, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM). Cerca de 70% dos deslocados já foram registrados.

Além disso, duas organizações da sociedade civil relatam que pouco mais de 2 mil pessoas deslocadas em Kebkabiya. O total de deslocados no estado de Darfur do Norte, após as recentes hostilidades em Jebel Marra, já chega a 87.502 pessoas, disse a funcionário da ONU.

Entenda o conflito e a atuação da ONU em Darfur, região do Sudão

A guerra civil em Darfur teve início em 2003 entre o governo do Sudão e suas milícias aliadas, e outros grupos rebeldes armados. Particularmente durante os dois primeiros anos do conflito, dezenas – se não centenas de milhares – de pessoas foram mortas. A luta ainda em curso se dá entre o governo e movimentos espalhados. No total, cerca de 2 milhões de pessoas estão deslocadas internamente e pelo menos 200 mil morreram, desde 2003.

Neste mesmo ano, as Nações Unidas alertaram pela primeira vez sobre a crise em Darfur. Desde então, a busca de uma solução duradoura tem sido uma das prioridades do Conselho de Segurança da Organização, bem como dos dois últimos secretários-gerais. O longo processo de paz incluiu um acordo assinado em 5 de maio de 2006 – o Acordo de Paz de Darfur –, sob os auspícios da União Africana e com o apoio das Nações Unidas e outros parceiros.

Em 2006, a União Africana implantou uma missão de paz para o Sudão, que foi substituída em 2008 por uma missão conjunta inédita entre a União Africana e as Nações Unidas em Darfur, a UNAMID, atualmente a maior missão de paz no mundo em atuação. O mandato da UNAMID foi ampliado desde então em diversas ocasiões.

A UNAMID tem a proteção de civis como base de seu mandato, mas também tem a tarefa de contribuir para a segurança da assistência humanitária, controlar e verificar a execução dos acordos, auxiliar em um processo político inclusivo, contribuir para a promoção dos direitos humanos e do Estado de Direito e monitoramento e relatórios sobre a situação ao longo das fronteiras com o Chade e com a República Centro-Africana.

A sede da Missão está em El Fasher, capital de Darfur do Norte, com mais locais de implantação ao longo dos três estados de Darfur. A Missão realiza uma média de mais de 200 patrulhas por dia. O objetivo é fazer tudo ao seu alcance para proteger os civis em Darfur, facilitar a operação de ajuda humanitária a todas as áreas, independentemente de quem os controla, e ajudar a fornecer um ambiente no qual a paz possa criar raízes.