Dez anos após queda de Saddam, falta de liberdade de imprensa ainda é problema grave no Iraque

O governo de Saddam Hussein no Iraque foi um período de censura e controle da informação no país. Após a queda do governante em 2003, a esperança de uma verdadeira liberdade de expressão era grande entre os iraquianos e centenas de rádios, canais de televisão e jornais começaram a aparecer. Apesar da diversidade, o acesso à informação, ainda hoje, está longe de ser democrático.

O Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos é claro ao dizer que “todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.

O governo de Saddam Hussein no Iraque foi um período de censura e controle da informação no país. Após a queda do governante em 2003, a esperança de uma verdadeira liberdade de expressão era grande entre os iraquianos e centenas de rádios, canais de televisão e jornais começaram a aparecer. Apesar da diversidade, o acesso à informação, ainda hoje, está longe de ser democrático.

“Os jornalistas e profissionais de mídia em todo o Iraque continuam a enfrentar altos níveis de risco decorrentes de reportagens sobre corrupção, manifestações ou questões relacionadas a reformas de leis”, indica o diretor do Escritório de Direitos Humanos da Missão de Assistência da ONU para o Iraque (UNAMI), Francesco Motta.

O Iraque permanece um ambiente instável, onde violência e ataques terroristas ainda tiram muitas vidas. Jornalistas escrevem sobre a violência ao mesmo tempo em que a experimentam. “As ameaças e intimidações são comuns, assim como as agressões físicas, tentativas de homicídios e assassinatos”, conta.

O Iraque foi o 150º classificado em uma lista com 179 países no Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa lançado esse ano e publicado pelo Repórteres Sem Fronteiras. Segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas, o país também foi considerado o mais perigoso para os profissionais da imprensa no período 2003-2008, quando 136 jornalistas foram mortos.

Além da violência, os profissionais da imprensa também enfrentam outros tipos de discriminação, como exemplifica a diretora de assuntos humanitários da UNAMI, Karin Mayer. “Jornalistas e meios de comunicação cada vez mais enfrentam acusações de serem filiados e/ou simpatizantes de grupos terroristas e são muitas vezes sujeitos a processos criminais por difamação.”

Ao mesmo tempo, a independência financeira permanece um desafio para a imprensa iraquiana. A falta de anúncios publicitários vem obrigando vários jornais e emissoras de TV a aceitar financiamento de grupos políticas, o que impede a mídia de permanecer imparcial.

Editor-chefe do jornal independente Al-Sabah al-Jadeed, Ismael Zayer vai mais longe. “O governo e outras entidades não influenciam diretamente a nossa redação. No entanto, pensamos muito antes de escrever qualquer coisa por causa das milícias e acusações políticas. Os jornalistas estão cada vez mais cautelosos. Autocontrole e autocensura são comuns.”

Para Zayer, autocensura e independência não são os únicos desafios. “Outro problema é a falta de informação. Nós não temos poder suficiente para ter acesso a informações do governo”, lamenta.

No entanto, as novas possibilidades de comunicação abertas pela Internet trazem esperança para os jornalistas. Mayer destaca que o aumento do uso dessa ferramenta no país está aumentando a liberdade de expressão.

“Informação e sua livre circulação são fundamentais para o funcionamento da democracia”, ressalta. “Quando os jornalistas não podem relatar de forma imparcial e dar as informações corretas, a população não pode participar do discurso democrático e de tomadas de decisão, tendo que operar a partir de um vácuo de informação.”