Dia das Crianças celebra convívio entre brasileiros e refugiados no Rio; assista ao vídeo

Apostando na convivência, uma grande festa reuniu brasileiros e refugiados no último sábado (8) para um dia de encontro, música, brincadeiras e diversão. Confira aqui o vídeo.

Em São Paulo, o renomado pianista e maestro brasileiro João Carlos Martins deu início à sua nova missão: formar em apenas três meses um coral com 25 crianças refugiadas de diferentes nacionalidades, todas residentes no Brasil.

Quando o colombiano Sebastián, de 9 anos, começou a chorar e correu para os braços da mãe, a festa para celebrar o Dia das Crianças dos meninos e das meninas em situação de refúgio no Rio de Janeiro não tinha sequer chegado à metade. Parecia que algo havia acontecido, mas o real motivo das lágrimas tinha a ver, no fundo, com um certo excesso de euforia e diversão.

“Ele gritou tanto que perdeu a voz e então se desesperou, achando que nunca mais conseguiria falar nem cantar”, explicou a mãe, Ninibe, achando graça da situação.

Esse era o clima do último sábado no Orfeão Português, o clube da Zona Norte do Rio onde dezenas de crianças receberam passe livre para se divertir durante sete horas ininterruptas de atividades e brincadeiras. A festa, organizada pela empresa de seguros Prudential do Brasil em parceria com a Cáritas RJ, mobilizou cerca de 60 voluntários, dedicados exclusivamente a garantir um dia inesquecível para a garotada.

Foi assim que, em meio a bolas, balões e bambolês, Sebastián ficou afônico. Mas não demorou para ele mesmo perceber que não precisava da voz para brincar e, minutos depois, voltar a correr, pular e dançar. Em outro momento, era possível vê-lo aprendendo a customizar fantasias ao lado do novo amigo Max, brasileiro de 10 anos, que pouco antes jogava bola com o congolês Enock.

As nacionalidades eram um detalhe insignificante para as crianças. Tanto no futebol como no pega-pega, todas se comunicavam em português, algumas com mais sotaque do que outras, mas nenhuma com discriminação. O convívio e o respeito eram os princípios tácitos que regiam as relações e a festa como um todo.

Festa teve participação da cantora pacifista Ingrid Soto, de 14 anos, que arrecadou dezenas de brinquedos para distribuir às crianças refugiadas. Foto: ACNUR/Diogo Félix

Festa teve participação da cantora pacifista Ingrid Soto, de 14 anos, que arrecadou dezenas de brinquedos para distribuir às crianças refugiadas. Foto: ACNUR/Diogo Félix

A brasileira Cristal Figueiredo viu que a celebração seria aberta ao público e propôs ao marido que levassem as duas filhas, de 3 e 4 anos. “Nós gostamos dessa interação e achamos que isso faz muito bem para a infância das nossas meninas. Elas vão crescer com uma visão diferenciada”, disse.

Já nos momentos finais da festa, a cantora pacifista Ingrid Soto, de 14 anos, fez uma apresentação musical e avisou que haveria uma surpresa. Era a senha para a distribuição dos brinquedos, arrecadados em São Paulo pela ativista mirim.

“Há quatro anos faço campanhas em prol das crianças refugiadas e já estava com vontade de estendê-las para outras cidades, como o Rio de Janeiro”, explicou Ingrid. “Foi muito gratificante vir aqui e fazer a distribuição dos brinquedos. Essas crianças precisam voltar a sonhar e a ter esperança em um futuro melhor.”

Coral reúne crianças refugiadas em São Paulo

Ao entrar na sede Fundação Bachiana, há cerca e uma semana, o renomado pianista e maestro brasileiro João Carlos Martins deu início à sua nova missão: formar em apenas três meses um coral com 25 crianças refugiadas de diferentes nacionalidades, todas residentes no Brasil.

No local, o menino sírio Lawand, de 12 anos, e seu irmão Laish, de 4, já o esperavam com ansiedade. A irmã caçula Cimaf, de apenas um ano e meio, descansava no colo da mãe, Fátima, empresária que foi forçada a deixar a Síria e a buscar refúgio no Brasil. Lawand cumprimentou o músico com um formal aperto de mão e lhe presenteou com um desenho em tons pastel de árvores, casa e passarinhos.

“O meu irmão rasgou um pedaço do papel, desculpe”, antecipou o menino ao maestro. “E você já fala português assim tão bem?”, perguntou Martins a Lawand, que cursa o 5º ano do ensino fundamental em uma escola pública de São Paulo. “Graças a Deus”, respondeu o garoto.

Lawand é um dos integrantes do coral infanto-juvenil “Somos Iguais – Se Coloque no Lugar”, que reunirá crianças refugiadas vindas da Síria, África e Colômbia – entre outras regiões do mundo. Este será o segundo coral de crianças refugiadas em São Paulo, cidade que abriga a maior parte dos mais de 8,8 mil estrangeiros reconhecidos pelo governo brasileiro nesta condição.

O coral já nasce sob a pressão do calendário. Quatro apresentações natalinas com a Orquestra Bachiana Filarmônica estão previstas para este final de ano na capital paulista: de 16 a 18 de dezembro, no Teatro Santander, e em 20 de dezembro, no auditório da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Sendo assim, não há tempo a perder: o primeiro ensaio, sob a condução de Martins, acontece em uma semana, na sede da fundação.

Reconhecido pela crítica internacional como um dos grandes intérpretes do compositor alemão Johann Sebastian Bach no século 20, Martins tomou para si a responsabilidade de fazer este projeto acontecer. Ele atuará como voluntário na preparação musical das crianças para o coral, visando transformá-las, no futuro, em músicos de orquestra.

Segundo ele, por meio da música será possível sensibilizar autoridades públicas e a sociedade em geral a adotar posturas menos cômodas em relação à crise humanitária na Síria e outros países e, em especial, aos refugiados que chegam ao Brasil para reconstruir suas vidas.

“Essa causa é tão importante que eu quero destacá-la nos nossos concertos natalinos”, afirmou Martins ao ACNUR. “A música une gerações, nações, causas, comunidades e famílias. Neste momento, será o meio de nos unirmos aos refugiados”, explicou.

Maestro João Carlos Martins com criança refugiada de Angola que vive no Brasil Foto: Projeto Somos Todos Iguais

Maestro João Carlos Martins com criança refugiada de Angola que vive no Brasil Foto: Projeto Somos Todos Iguais