Com a adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, países reafirmaram seu compromisso de pôr fim a novas infecções de HIV/Aids. Com a Estratégia de Aceleração da Resposta do UNAIDS, mais pessoas tiveram acesso ao tratamento que ajuda a salvar vidas. Acabar com o estigma e discriminação também são metas da ONU.

Encontro Nacional Vivendo debate o enfrentamento ao preconceito e a discriminação de portadores do vírus HIV/Aids em frente à Assembleia Legislativa do Rio em 2004. Foto: Agência Brasil/ Fernando Frazão.
A comemoração do Dia Mundial da Aids em 2015, celebrado em 1º de dezembro, tem um motivo especial este ano. Em setembro, com a adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, chefes de Estado e Governo se comprometeram a não medir esforços para acabar com esta epidemia até 2030, indicando um momento único para mudar o curso da história para sempre.
“Este compromisso reflete o poder de solidariedade para promover, a partir de uma doença destrutiva, um dos movimentos mais inclusivos na história moderna”, disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.
Para pôr fim à epidemia e evitar a sua reincidência é necessário agir em todas as frentes, lembrou Ban. Entre elas, dobrar o número de pessoas em tratamento para alcançar todas as 37 milhões de pessoas vivendo com HIV e fornecer informação e acesso a opções reais de proteção do HIV para meninas adolescentes e jovens mulheres.
“Este ano, vamos assinalar o Dia Mundial da AIDS com uma nova esperança. Aplaudo a defesa firme de ativistas. Louvo os esforços persistentes dos trabalhadores na saúde. E presto uma homenagem à posição de princípio de defensores dos direitos humanos e a coragem de todos aqueles que uniram forças para lutar pelo progresso global contra a doença”, disse Ban, prestando homenagem também a todos aqueles que perderam suas vidas para esta doença.
Cada criança pode nascer livre do HIV e suas mães podem não apenas sobreviver, mas prosperar, afirmou o chefe da ONU. “Acabar com a AIDS é essencial para o sucesso de “Cada Mulher e Cada Criança” e a Estratégia Global que lancei para garantir a saúde e o bem-estar de mulheres, crianças e adolescentes dentro de uma geração”, citou Ban.
O diretor executivo do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) lembrou que hoje 15,8 milhões de pessoas têm acesso a tratamentos capazes de salvar vidas. Com o aprimoramento dos esforços, esta atenção passa a ser redistribuída melhor a todos aqueles, que por um motivo ou outro, foram deixados para trás. As ações globais também ajudam a prevenir um aumento nas novas infecções por HIV e mortes relacionadas à AIDS, bem como colaboram para eliminar o estigma e a discriminação relacionados ao HIV.
“Neste Dia Mundial de Luta contra a AIDS, os países estão implementando a estratégia de Aceleração da Resposta do UNAIDS e, juntamente com um reforço nos investimentos, podemos esperar que as lacunas nos serviços essenciais sejam fechadas de forma mais rápida. Isso significa que os recursos podem ir além e chegar a mais pessoas com resultados que promovam uma verdadeira mudança em suas vida”, disse.
Para a diretora do UNAIDS no Brasil, Georgiana Braga-Orillard, “vislumbrar o fim da epidemia não é mais utopia – é um compromisso”. Ela recordou que, com o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio 6, o mundo conseguiu alcançar a meta de parar e reverter o curso da epidemia de Aids antes do tempo, fornecendo tratamento para 15 milhões de pessoas. “Essa meta, aliás, era considerada inatingível por muitos, quando no ano 2000 tínhamos apenas 1 milhão de pessoas em tratamento”, completou.
“O Brasil tem sido um aliado de peso, e colocou em campo um arsenal muito importante contra a epidemia: sua estrutura governamental, novas tecnologias e sua ampla rede de saúde, além, é claro, de muita força de vontade e engajamento”, concluiu.
Violência e discriminação
No entanto, a diretora chamou a atenção para a violência e discriminação que sofrem as pessoas gays, trans e homens que fazem sexo com homens. Segundo um estudo da organização Transgender Europe, 40% de assassinatos de pessoas trans ocorre no Brasil. Esta situação, alerta a representante, é inaceitável e compromete os esforços para acabar com a epidemia.
Em sua mensagem, o diretor executivo do Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (UNODC), Yury Fedotov, lembrou da importância de construir pontes entre saúde, justiça e segurança pública. “Essas pontes são vitais. A ação coletiva e a cooperação precisa e deliberada podem superar os obstáculos políticos e legais que impedem o acesso aos serviços de HIV. Isso inclui ampliar programas com abordagens integrais e garantir a igualdade de acesso aos serviços de HIV”, disse.
A administradora do Programa da ONU para o Desenvolvimento, Helen Clark, destacou as parcerias, como a do PNUD e o Fundo Global, que permitiram que 2,2 milhões de pessoas tivessem acesso à terapia antirretroviral. No entanto, enfatizou que ainda não é hora de abandonar a luta. Apenas em 2014, 1,2 milhão de mortes decorrentes da Aids e 2 milhões de infecções por HIV foram registradas. E doenças relacionadas à Aids continuam a provocar danos reais, especialmente, na África Subsaariana, ressaltou Clark.
“Se mantivermos nosso status quo, o HIV continuará a ultrapassar a resposta, e a meta de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 não será alcançada. Por outro lado, se derrotar a Aids se mantiver como uma prioridade, e se as respostas e políticas relacionadas ao HIV forem abordadas de forma holística e não discriminatória, onde grupos marginalizados forem mantidos no primeiro plano de nossos esforços, poderemos alcançar nosso objetivo”, disse a representante.
Associação com as drogas
Na abertura do V Congresso Internacional da Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas (ABRAMD) no dia 1º de dezembro, o representante do UNODC no Brasil, Rafael Franzini, lembrou que em alguns países, como o Brasil, a epidemia do HIV está concentrada em alguns grupos, as chamadas populações-chaves e populações vulneráveis.
“As pessoas que usam drogas compõe esse grupo de populações-chaves e por isso são prioritárias na resposta à Aids, no Brasil. O UNODC está junto ao governo e sociedade brasileira para combater a epidemia de HIV entre pessoas que usam drogas e pessoas privadas de liberdade”, afirmou Franzini.
Ao longo do evento, Franzini, participou ainda de uma mesa que discutiu a Sessão Especial sobre Drogas da Assembleia das Nações Unidas (UNGASS), que acontecerá em 2016 e que será uma oportunidade única para os países de discutirem e repensarem suas políticas de drogas.