Para Laís Abramo, o atual modelo de desenvolvimento e a noção tradicional de família precisam ser revistos. O mercado de trabalho também deve acompanhar as novas tendências.
Segundo a Diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil, Laís Abramo, a transversalização da perspectiva de gênero é necessária para garantir um modelo de desenvolvimento verdadeiramente inclusivo e sustentável na agenda da ONU que tratará dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), sucessores dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) a partir de 2015.
“O atual modelo de desenvolvimento, estruturado a partir de uma noção restrita da atividade econômica e ocupação, está em crise há algum tempo”, afirmou Abramo, adicionando que o modelo tradicional de relação entre trabalho e família está em xeque e existem mitos que precisam ser desfeitos. Ela citou a noção de famílias biparentais e estáveis e do homem provedor versus a mulher cuidadora entre esses mitos, defendendo mercados de trabalho adaptados a trabalhadores e trabalhadoras com responsabilidades familiares.
Um estudo realizado em 2001 em cinco países da América Latina — Brasil, Argentina, Chile, México e Uruguai — mostrou que os custos monetários diretos para o empregador associados à proteção da maternidade e ao cuidado infantil são muito reduzidos: equivalem a menos de 2% da remuneração bruta mensal das mulheres. “Ou seja, o custo adicional é irrelevante e não justifica a desigualdade de gênero”, salientou.
Para Laís Abramo, um modelo de desenvolvimento verdadeiramente sustentável e inclusivo deve incorporar o reconhecimento do papel econômico e produtivo das mulheres e dos homens como cuidadores, desconstruindo a noção de “trabalhador ideal” e da mulher como força de trabalho secundária. Além disso, é necessário repensar o lugar de homens e mulheres, as relações de gênero e a concepção de família nas políticas sociais, econômicas e de trabalho para evitar que esses mitos e estereótipos sejam reproduzidos.
As declarações foram feitas durante a abertura do Seminário “O uso do tempo e políticas públicas de cuidado: Reflexões para uma agenda de desenvolvimento sustentável”, promovido pela Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) e pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), com apoio da OIT.