O chefe do ACNUR e assessores especiais da ONU advertiram para o perigo das declarações públicas e publicações na mídia contra os refugiados, principalmente muçulmanos, e sua vinculação indevida aos atentados terroristas.

Refugiados esperam na estação de trem de Viena. Foto: Wikicommons/Bwag (cc)
O chefe da Agência da ONU para Refugiados, António Guterres, alertou que a retórica contra os muçulmanos, incluindo a pressão para controles fronteiriços mais rigorosos, poderia resultar no efeito contrário ao pretendido, fortalecendo aos grupos terroristas.
“O que você está dizendo (como esse tipo de ação) é a melhor propaganda possível para as organizações terroristas”, disse Guterres. Em meio a aplausos, ele afirmou ao fórum TED Global, realizado em Genebra nesta terça-feira (15): “É como se disséssemos a eles ‘vocês estão certo, estamos contra vocês’.”
Guterres citou o candidato presidencial republicano, Donald Trump, que defende o “bloqueio” da entrada dos muçulmanos nos Estados Unidos. Para o alto comissário, esta e outras declarações similares serão ouvidas por “todos os muçulmanos na Europa” e no resto do mundo, e estas mesmas palavras serão distorcidas por grupos extremistas para ajudar “no recrutamento para ataques terroristas”.

O diretor europeu da TED, Bruno Giussani, entrevista o alto comissário das Nações Unidas para Refugiados, António Guterres, durante o TED Global em Genebra. Foto: TED/James Duncan Davidson (cc)
O Alto Comissariado da ONU para Refugiados, que deixa o cargo no final de dezembro, depois de 10 anos de liderança na organização, disse que continua com sua “profunda convicção” de que o grande fluxo de refugiados para a Europa neste ano não tem nenhuma relação com os recentes ataques de Paris.
Sobre o engajamento de milhares de europeus à luta armada na Síria, Guterres sublinhou que grande parte do problema se deu na própria Europa ao não conseguir criar vínculos de integração entre as gerações anteriores com seus novos países de maneira eficaz.
“Prove a estes grupos que eles estão errados, acolhendo e integrando essas pessoas”, disse ao pedir mais comprometimento em investimento em políticas futuras que promovam a coesão social.
Mesmo antes dos ataques do mês passado em Paris, muitos países europeus já estavam falando em fechar suas fronteiras aos refugiados – ou estavam realmente fazendo – devido ao grande contingente de pessoas.
No entanto, grande parte da retórica que defende a relação entre refugiados e atos de violência também vem dos Estados Unidos, onde alguns políticos ameaçaram fechar as suas portas aos refugiados sírios. A Câmara dos Deputados norte-americana também votou expressivamente para suspender o programa do presidente Barack Obama para reassentar 10 mil refugiados sírios e intensificar o processo de triagem dos mesmos.
Discurso de ódio
Paralelamente a este evento, dois assessores especiais da ONU alertaram nesta terça-feira (15) para a intolerância e ódio em discursos públicos e reproduzidos nos meios de comunicação recentemente. Eles chamaram a atenção, principalmente, para a manipulação de fatos com o único propósito de provocar receio e preocupação para seus próprios ganhos políticos.
O assessor especial sobre Prevenção do Genocídio, Adama Dieng, e a assessora especial sobre Responsabilidade de Proteger, Jennifer Welsh, sublinharam os efeitos daninhos de vincular as populações muçulmanas aos ataques terroristas, o que tem gerado ataques e discriminação.
Eles também recordaram que qualquer apologia de ódio baseada em nacionalidade, raça e religião que leve à discriminação, hostilidade e violência é proibida sob a lei internacional dos direitos humanos.
Também advertiram contra declarações de políticos pedindo a criação de uma base de dados para muçulmanos, identificações que destaquem a religião e o fechamento das fronteiras. “Em um momento em que o mundo enfrenta desafios complexos, incluindo o confronto de grupos e indivíduos extremistas violentos. Governos e líderes de protagonismo na sociedade devem combater as mentiras, o preconceito e o medo”, disseram os assessores.