El Niño perde força, mas secas e enchentes ainda vão afetar países pelos próximos meses

África é um dos continentes mais afetados. Fenômeno climático agravou a insegurança alimentar em países que já enfrentavam estiagens há dois anos, como a Etiópia, onde 18 milhões de pessoas precisarão de assistência até o final de 2016. Malauí enfrenta sua pior crise de alimentos em nove anos e mais de 15% da população pode vir a passar fome. Zimbábue, Lesoto e Quênia enfrentam surtos de doenças associadas à falta de água própria para o consumo.

Famílias de pastores foram forçadas a abandonar seus lares na região central da Etiópia para buscar água e pasto para o gado. Foto: UNICEF / Mulugeta Ayene

Famílias de pastores foram forçadas a abandonar seus lares na região central da Etiópia para buscar água e pasto para o gado. Foto: UNICEF / Mulugeta Ayene

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou na última semana que o atual El Niño já atingiu seu ápice e deve se enfraquecer até se dissipar no segundo trimestre de 2016. No entanto, a agência da ONU alertou que, durante os próximos meses, comunidades continuarão sofrendo os impactos econômicos e humanitários provocados pelo fenômeno climático, um dos mais intensos já registrados.

Em diferentes partes do mundo, o El Niño tem sido responsável por aumentos ou decrescimentos significativos do volume de chuvas.

Na América do Sul, o fenômeno foi responsável por enchentes no Paraguai, no final de 2015. Para os próximos meses, previsões estimam uma elevação do índice de precipitações no país e também no México, no norte do Peru, na região costeira do Equador, no sudeste do Brasil, no Uruguai e no norte da Argentina. Em contraste, na Costa Rica, no Panamá, no norte da Venezuela, da Colômbia e do Chile e no nordeste do Brasil, o El Niño será responsável por chuvas abaixo das médias regionais.

Na América Central, secas severas foram registradas na Guatemala, em Honduras, em El Salvador e em países caribenhos, devido aos desdobramentos do fenômeno climático. Na Austrália, o El Niño também contribuiu para tornar 2015 um ano mais quente e mais seco, em relação a períodos anteriores.

Na Ásia, foram verificadas alterações do regime das monções, que trouxeram menos chuvas durante o verão. Durante o inverno, porém, a Índia e o Sri Lanka registraram volumes acima da média. No sudeste do continente, o El Niño esteve associado a estiagens, entre julho e outubro de 2015. Isso contribuiu para o recrudescimento de incêndios espontâneos na Indonésia, que deixaram muitas regiões do país e de nações vizinhas sob densa fumaça, gerando complicações de saúde.

“Acabamos de testemunhar uma das mais poderosas ocorrências do El Niño, que causou condições climáticas extremas em países de todos os continentes e ajudou subir o calor recorde de 2015”, afirmou o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas.

Fenômeno agrava insegurança alimentar e epidemias na África

Na véspera (17) do pronunciamento da OMM, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) chamou atenção para os milhões de crianças que enfrentam doenças e escassez de água e comida na África, onde o El Niño acentuou as vulnerabilidades de comunidades já afetadas por estiagens duradouras.

A agência da ONU presta assistência às populações, mas enfrenta falta de verba. O organismo conta com menos de 15% do financiamento solicitado para operações em regiões castigadas pelo fenômeno climático.

Segundo a diretora regional do UNICEF, Leila Gharagozloo-Pakkala, nas porções oriental e meridional do continente africano, o fenômeno climático agravou a escassez de recursos e provocou o aumento dos preços dos alimentos, forçando famílias a adotar mecanismos de cooperação drásticos, como o hábito de “pular refeições” e a venda de quaisquer bens de valor.

Na Etiópia, afetada por secas severas há dois anos, o número de pessoas que precisa de comida para complementar sua alimentação deve aumentar de 10 para 18 milhões, até o final de 2016. Atualmente, seis milhões de crianças precisam de assistência.

No Zimbábue, cerca de 2,8 milhões de indivíduos enfrentam insegurança alimentar e nutricional. Em Angola, esse contingente chega a 800 mil pessoas e estimativas indicam que 1,4 milhão de angolanos já foram afetados por condições climáticas extremas.

O Malauí está enfrentado a pior crise alimentar dos últimos nove anos. No país, casos de má nutrição duplicaram entre dezembro do ano passado e janeiro de 2016. Mais de 15% da população – 2,8 milhões de pessoas – corre o risco de passar fome.

No Quênia, no Zimbábue e em Lesoto, surtos de cólera e outras doenças vinculadas ao consumo de água imprópria afetam a população. Estima-se que um quarto dos lesotianos esteja suscetível a essas infecções. A proporção é particularmente preocupante, uma vez que, no país, 34% das crianças são órfãs, 57% das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza e quase um quarto dos adultos possui HIV.