Em encontro em Sharjah, ACNUR pede medidas urgentes para proteção de crianças refugiadas

O alto comissário da ONU para Refugiados disse que as crianças, o grupo mais vulnerável ​​em tempos de conflito, agora compõem metade dos refugiados do mundo, a maior proporção em mais de uma década.

Uma família deslocada de Mossul, no Iraque, durante os conflitos em 2014. Foto: Acnur/S.Baldwin

Uma família deslocada de Mossul, no Iraque, durante os conflitos em 2014. Foto: Acnur/S.Baldwin

Em uma importante conferência nos Emirados Árabes, o alto Comissário da ONU para Refugiados, António Guterres, pediu na última semana medidas urgentes para fortalecer a proteção de milhões de crianças refugiadas.

Proteger crianças refugiadas é uma prioridade para a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), e fazer isso da melhor maneira requer estreita colaboração com todos os envolvidos​​”, disse Guterres aos delegados na abertura dos dois dias da conferência “Investindo no Futuro” realizada, que está sendo organizada pelo governador de Sharjah, o xeique Sultan bin Muhammad Al Qasimi. O foco é o Oriente Médio e o Norte da África.

“Precisamos fazer o melhor para manter as crianças refugiadas seguras – garantindo seu acesso à educação de qualidade, atendimento psicossocial e apoio para aquelas com necessidades específicas, além de assegurar seu registro de nascimento. Mas é igualmente importante apoiar suas famílias e comunidades para que possam protegê-las melhor”, acrescentou o alto comissário.

Segundo ele, a conferência de Sharjah representou uma oportunidade de trabalhar em conjunto para melhorar a proteção das crianças refugiadas na região. “Espero que esta reunião ajude a fortalecer as parcerias entre governos, sociedade civil, organizações internacionais e setor privado, e que identifiquemos ações específicas para garantir que as crianças e adolescentes refugiados estejam melhores protegidas, com esperança para o futuro”.

Guterres disse ainda que as crianças, o grupo mais vulnerável ​​em tempos de conflito e deslocamento, agora compõem metade dos refugiados do mundo, a maior proporção em mais de uma década. A situação no Oriente Médio é particularmente mais grave, com crises na Síria e no Iraque. “Nesta região, a cada minuto, uma criança é forçada a fugir de seu país”,

“O impacto do deslocamento forçado para crianças é enorme”, disse Guterres. “Muitas das crianças refugiadas que conheci presenciaram a violência e a brutalidade da guerra, perderam entes queridos ou foram feridas.”

A vida das crianças no exílio é cheia de incertezas e lutas diárias. “Muitas são separadas de suas famílias, têm dificuldades para acessar serviços básicos, e vivem em pobreza crescente. Apenas uma em cada duas crianças refugiadas sírias nos países vizinhos estuda”, acrescentou Guterres.

“Sabemos que as crianças refugiadas correm mais risco de trabalho infantil e recrutamento, e são mais vulneráveis ​​à violência em suas casas, comunidades e escolas, incluindo a violência sexual e baseada em gênero. Esta é uma das razões, além das dificuldades financeiras, que levam os pais a concordarem em casar suas filhas ainda crianças.”

Violência: “graves, caras e de longo prazo”

O Alto Comissário disse que as consequências da violência para as crianças são “graves, caras e de longo prazo” tanto para as crianças quanto para suas comunidades. “À medida que o deslocamento se torna mais prolongado, é necessário mais investimento para apoiar sistemas e serviços de proteção nacional, fornecidos pelo governo e organizações da sociedade civil.”

“Não podemos permitir que essas crianças se tornem uma geração perdida. Se não as protegermos da exploração e abuso, se as deixarmos sem educação e qualificação, a recuperação e o desenvolvimento de seus países atrasarão por muitos anos”, disse Guterres.

Em outro discurso, a rainha da Jordânia Rania descreveu o deslocamento em massa da Síria como “um tapa na cara da humanidade.” Ela também pediu a continuação do apoio internacional para os países de acolhimento como a Jordânia, acrescentando que “as necessidades são muito maiores do que o apoio oferecido.”

Mais de 300 delegados, incluindo funcionários de governo, trabalhadores humanitários e especialistas em assuntos de refugiados e de proteção à criança discutiram uma ampla gama de questões durante o encontro em Sharjah. Os tópicos incluíam a violência sexual e baseada no gênero; proteção de crianças afetadas por conflitos armados; registro de nascimento e documentação legal dos bebês nascidos em situação refúgio; exploração e separação; educação e capacitação de jovens como agentes de transformação.

A apoiadora do ACNUR, a xeique Jawaher Bint Mohammed Al Qasimi, esposa do governante de Sharjah, ajudou a organizar a conferência, o primeiro deste tipo na região. A reunião terminou na quinta-feira (16) com o conjunto de princípios para proteção às crianças refugiadas.