Em entrevista, novo secretário-geral da ONU diz que paz será prioridade em seu mandato

“A ausência da paz é o problema mais dramático que estamos encarando no mundo atualmente”, afirmou o secretário-geral eleito das Nações Unidas, António Guterres, em entrevista ao Centro de Notícias da ONU. O novo dirigente máximo da Organização alertou que há um sentimento de impunidade envolvendo a comunidade internacional. Fortalecer diplomacia para a resolução de conflitos será prioridade.

António Guterres durante visita ao Curdistão iraquiano, quando ainda ocupava a chefia do ACNUR. Foto: ACNUR / S. Baldwin

António Guterres durante visita ao Curdistão iraquiano, quando ainda ocupava a chefia do ACNUR. Foto: ACNUR / S. Baldwin

No dia 13 de outubro de 2016, a Assembleia Geral das Nações Unidas elegeu, por aclamação, António Guterres como o novo secretário-geral da ONU. O dirigente liderará a Organização a partir de 1º de janeiro de 2017 e ocupará o posto máximo de chefia pelos próximos cinco anos.

Guterres sucede o atual secretário-geral, Ban Ki-moon, da Coreia do Sul, indicado em 2006 e cujo mandato termina no dia 31 de dezembro de 2016.

O novo chefe da ONU tem 67 anos e foi primeiro-ministro de Portugal entre 1995 e 2002, quando se envolveu nos esforços internacionais para solucionar a crise no Timor-Leste. Por dez anos — de junho de 2005 a dezembro de 2015 —, trabalhou como alto-comissário para os refugiados, chefiando a agência das Nações Unidas para o tema, o ACNUR.

Em entrevista ao Centro de Notícias da ONU, Guterres falou sobre a prioridade que deverá dar à diplomacia para a paz, sobre igualdade de gênero, crise de refugiados, entre outros temas. Confira:

Centro de Notícias da ONU
: Quais serão suas prioridades mais imediatas e urgentes quando assumir o cargo de secretário-geral da ONU, em janeiro de 2017?

Guterres: Se vocês me permitem, antes de responder à pergunta, gostaria de expressar minha profunda solidariedade com toda a equipe das Nações Unidas. Eu tive o privilégio de ser um colega durante os dez anos em que trabalhei no ACNUR, e estou muito entusiasmado com a ideia de se tornar um colega novamente no dia 1º de janeiro. Não vejo a hora de trabalhar com todo o pessoal da ONU em qualquer lugar do mundo.

Voltando à questão, acho que a primeira prioridade é em relação à paz. A ausência de paz é o problema mais dramático que estamos encarando no mundo atualmente. Nós estamos vendo uma multiplicação de novos conflitos e conflitos antigos que nunca morrem. Olhe para a questão da Somália, do Afeganistão ou para a República Democrática do Congo; e o mundo mudou. Há um sentimento de impunidade e de imprevisibilidade, e a comunidade internacional perdeu muito da sua capacidade de prevenir conflitos e de resolvê-los. Assim, uma aumento da diplomacia para a paz seria a minha prioridade.

Eu sei que isso depende muito dos Estados-membros, e que o secretário-geral tem uma capacidade limitada, mas atuando como um organizador, um catalisador e um mediador honesto, acredito que será possível unir cada vez mais os Estados-membros.

Entendo que, no mundo de hoje, as guerras que estamos vendo são tão sórdidas e que o sofrimento das pessoas é terrível, mas, pior do que isso, é o impacto dessas guerras na nossa segurança coletiva. De fato, este é o momento em que todos — os envolvidos em conflitos ou os que têm influência sobre as partes envolvidas — precisam se unir e entender que o interesse comum pela segurança global é muito mais importante do que as eventuais divisões que possam existir entre eles.

Centro de Notícias da ONU: Então você acredita que a paz, ou a falta dela, é a razão central por trás da maioria das crises mundiais: como a crise dos refugiados, a crise financeira, os conflitos armados e o terrorismo?

Guterres: É nítido que tudo isso está interligado. E é nítido que o aumento da diplomacia para a paz é o melhor caminho a seguir. Essa atitude, ao mesmo tempo, ajuda-nos a limitar o sofrimento humano em várias dimensões. E a dimensão dos refugiados é, claramente, a mais preocupante.

Centro de Notícias da ONU
: Quando você pensa sobre o seu novo trabalho, quais as principais preocupações e desafios que vêm à mente?

Guterres: Eu acredito que o principal desafio no momento atual é ter a certeza de que nós estamos mais eficientes em relação à diplomacia para a paz que eu mencionei.

Mas há também grandes desafios relacionados à reforma da organização; o desafio de tornar a ONU mais eficaz e capaz de entregar ajuda às pessoas que precisam; bem como os desafios de garantir que realizações importantes, tais como a Agenda 2030 e o Acordo de Paris — que foram possíveis em um passado recente graças à iniciativa do secretário-geral Ban Ki-moon —, sejam efetivamente implementadas e tenham um acompanhamento eficaz. Há também a preocupação de assegurar que os direitos humanos sejam assumidos como uma responsabilidade comum de todos os Estados-membros.

Centro de Notícias da ONU: Pela primeira vez no processo de seleção do secretário-geral das Nações Unidas, nós vimos várias candidatas mulheres a um passo de serem consideradas. O que você acha do papel das mulheres em posições de chefia?

Guterres: Primeiramente, eu reconheço plenamente o valor simbólico de ter uma mulher como secretária-geral das Nações Unidas ou como chefe de Estado em qualquer país do mundo. Mas não há nada que eu possa fazer sobre isso. Eu não sou uma mulher.

O que eu posso fazer, em primeiro lugar, é assegurar que a organização, em tudo o que faz em todo o mundo, considere a capacitação e a proteção de mulheres e meninas uma prioridade central, e, em segundo, que a ONU trabalhe para alcançar, dentro da organização, paridade entre homens e mulheres em todos os níveis, no futuro mais próximo possível.

Como eu disse, eu não posso fazer nada sobre o meu gênero, mas posso ter um forte compromisso com a igualdade de gênero em tudo relacionado às Nações Unidas.

Centro de Notícias da ONU: Então, você considera ter uma mulher como vice-secretária-geral?

Guterres: Eu acho que é uma necessidade absoluta. Paridade significa que, se o secretário-geral é mulher, o vice deve ser homem. Se o secretário-geral é homem, o vice deve ser mulher.

Centro de Notícias da ONU: Você foi o alto-comissariado da ONU para refugiados por mais de dez anos. Como você vai usar a sua experiência nesta área para abordar, como secretário-geral, as questões das necessidades dos refugiados e migrantes?

Guterres: Eu fiquei muito preocupado em ver, em um passado recente, uma grave deterioração da proteção dos refugiados no mundo e níveis tão altos de hostilidade com as abordagens populistas e xenófobas em relação à migração em muitas partes do globo.

Espero que as cúpulas recentes que aconteceram em relação aos refugiados e à migração ajudem a mudar essas tendências. Farei todo o possível para revertê-las e para garantir que a proteção dos refugiados seja assumida como uma responsabilidade global, como de fato é.

E isso não diz respeito só à convenção para os refugiados. Está profundamente enraizado em todas as culturas e em todas as religiões em todo o mundo. É possível ver um forte compromisso com a proteção dos refugiados no Islã; no Cristianismo; na África; em diferentes religiões; no budismo; e no hinduísmo.

Então, será uma prioridade garantir que os países sejam capazes de respeitar não só o direito internacional, mas que também sejam capazes de assumir a sua total solidariedade com os necessitados de proteção que estão fugindo de conflitos horríveis. Também será uma prioridade olhar para a migração de um ponto de vista humano, reconhecendo que ela é parte da solução dos problemas globais.

A questão da migração só precisa ser regulada de forma eficiente; só precisa ser baseada na cooperação entre os Estados; não precisamos ter que ver pessoas morrendo ao mesmo tempo em que contrabandistas e traficantes ou grupos criminosos prosperam por não haver uma cooperação eficaz entre os países de origem, entre os países de trânsito, os países de destino, e por a migração não ser considerada como um dos elementos naturais em que o mundo resolve os seus problemas.

Centro de Notícias da ONU: O trabalho do secretário-geral tem sido descrito por muitas pessoas como um trabalho impossível. Agora, como você pretende transformar o impossível em possível?

Guterres: Eu vou dar o meu melhor. É a única coisa que eu posso dizer. Eu vou colocar toda a minha capacidade a serviço da causa nobre e dos valores nobres da ONU e da Carta das Nações Unidas.