Sudão do Sul: Uso ‘generalizado’ de estupro pode ser detido com mais esforços políticos e jurídicos

Representante especial da ONU sobre violência sexual em conflito ressaltou que a violência sexual é usada como arma de guerra e pediu que o país tome medidas para criminalizar esta prática.

A representante especial visitou a cidade de Bentiu, no Sudão do Sul, onde em abril milhares de pessoas foram mortas e outras estupradas. Foto: ONU/JC McIlwaine

A representante especial visitou a cidade de Bentiu, no Sudão do Sul, onde em abril milhares de pessoas foram mortas e outras estupradas. Foto: ONU/JC McIlwaine

“A violência sexual tornou-se uma característica fundamental do conflito no Sudão do Sul”, declarou a representante especial do secretário-geral da ONU sobre violência sexual em conflito, Zainab Hawa Bangura durante uma coletiva de imprensa na  sede da ONU na segunda-feira (20).

Após sua primeira missão ao Sudão do Sul para avaliar a situação da violência sexual em conflitos no país, Bangura disse que o uso generalizado de estupro poderia finalmente ser parado através de maiores esforços políticos e jurídicos por parte do governo e da sociedade civil.

Bangura visitou a cidade de Bentiu, no Sudão do Sul, onde centenas de civis foram massacrados em abril deste ano e muitas mais pessoas foram estupradas.

 “O que eu testemunhei em Bentiu foi  uma das piores coisas que eu já vi em quase trinta anos lidando com estas questões. Isto por conta da combinação da insegurança generalizada, das condições inimagináveis de moradia e com as graves diárias com a violência sexual desenfreada no país”, contou a representante da ONU.

Segundo relatos, os incidentes de violência sexual em Bentiu incluem estupro, estupro coletivo, aborto forçado e assédio sexual, provocados por autores de todas as partes do conflito, incluindo membros do Povo do Sudão Exército de Libertação (SPLA), do serviço nacional de polícia do Sudão do Sul e, mais recentemente do Movimento Justiça e Equidade (JEM).

Bangura explicou que os ativistas usam a rádio local, Bentiu FM, para disseminar um discurso de ódio e convocar os homens a cometerem atos de violência sexual contra mulheres e crianças de acordo com suas etnias e posições políticas.

A enviada especial detalhou a natureza da violência sexual que muitas mulheres estão sujeitas, enfatizando que “aquelas que lutam contra seus agressores são imediatamente feridas com objetos pontiagudos ou assassinadas”.

A grande parte das vítimas de assédios sexuais são jovens, contando de uma vítima em tratamento que possui apenas dois anos de idade. “Não é apenas um estupro, é superar uma dor e uma destruição inimagináveis”.

A visita, realizada entre 5 e 11 de outubro, culminou com a divulgação de um comunicado conjunto com o governo que descreve passos claros a ser tomados para prevenir e combater os crimes de violência sexual, como disposições para garantir assistência médica, psicossocial e jurídica às vítimas, segurança e reforma do setor judiciário e a proibição da violência sexual, para garantir que os crimes de violência sexual sejam abordados explicitamente no processo de paz.

“Se o Estado não pode respeitar a mulher durante tempos de paz, nunca poderá protegê-la durante conflitos”, alegou Bangurra, explicando que o Sudão do Sul se encontra agora em uma encruzilhada. Segunda ela, a nação pode rejeitar a violência sexual como arma política e de guerra, ou pode seguir pelo caminho da vingança e da dizimação de esperanças de um país inteiro por um futuro melhor.