Especialistas brasileiros em relações internacionais comemoraram a indicação do português António Guterres como novo secretário-geral da ONU, por conta de sua bagagem política e vasta experiência com catástrofes humanitárias, em um momento em que o mundo enfrenta mais de uma dezena de conflitos, crescentes ondas de nacionalismo e xenofobia, além da pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial.

Então alto-comissário da ONU para refugiados, António Guterres, e a representante especial da ONU na Libéria, Ellen Lój, recebem flores de boas-vindas em no campo de refugiados de Bahn. Foto: ACNUR/G. Gordon (março de 2011)
Especialistas brasileiros em relações internacionais comemoraram a indicação do português António Guterres como novo secretário-geral da ONU, por conta de sua bagagem política e vasta experiência com catástrofes humanitárias, em um momento em que o mundo enfrenta mais de uma dezena de conflitos, crescentes ondas de nacionalismo e xenofobia, além da pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial.
Engenheiro de formação, Guterres, de 67 anos, foi primeiro-ministro de Portugal entre 1995 e 2002. Nas Nações Unidas, atuou como alto-comissário para os refugiados, chefiando a agência da ONU especializada no tema, o ACNUR, entre junho de 2005 e dezembro de 2015 — período de forte aumento do número de deslocados por conflitos e perseguições.
É filho político da Revolução dos Cravos
de Portugal, viveu todos os desafios
da democratização, de mudanças
violentas de poder.
Para Maurício Santoro, professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a indicação de Guterres para o cargo de secretário-geral foi uma “excelente escolha” por parte do Conselho de Segurança da ONU, e contribuirá para que a crise dos refugiados se torne uma questão ainda mais central nas Nações Unidas.
“Ele traz uma série de perfis interessantes: é político, disputou e venceu eleições, teve cargos importantes em Portugal e na União Europeia”, disse Santoro, lembrando que, nesse aspecto, Guterres se diferencia de seus antecessores, já que tanto o ganês Kofi Annan como o sul-coreano Ban Ki-moon são diplomatas de carreira e não líderes políticos.
“Também é filho político da Revolução dos Cravos de Portugal, viveu todos os desafios da democratização, de mudanças violentas de poder”, lembrou. Segundo o especialista, tal histórico é relevante na medida em que essas questões permanecem presentes na atual conjuntura global, vide a prolongada guerra na Síria e as turbulências no Oriente Médio após a Primavera Árabe.
Na opinião de Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), a indicação de Guterres foi “uma das melhores notícias do ano” diante do difícil cenário geopolítico atual, marcado pela ascensão de políticos nacionalistas e pela crescente xenofobia na Europa e nos Estados Unidos.
Para o professor da FGV, junto ao combate às mudanças climáticas, a crise dos refugiados é o tema mais urgente na atualidade, por suas repercussões globais. “É o desafio mais imediato e coloca em perigo a vida de milhares de pessoas, mas também a estabilidade política não só do Oriente Médio, como da Europa e de parte da África”, disse.
Segundo Stuenkel, também contou a favor do ex-premiê português o fato de ele ter promovido reformas administrativas e modernizações importantes no ACNUR. Além disso, já defendeu publicamente a necessidade de a Europa abrir suas fronteiras para os refugiados. “Sendo europeu, ele terá intimidade para falar isso e iniciar um processo de aceitação, que ainda tem muitos inimigos na Europa”, comentou.
É necessário articular uma
visão de que a ONU é inclusiva
e faz sentido não só para
alguns, mas para todos.
O processo de escolha do novo secretário-geral da ONU também foi elogiado pelos especialistas, já que esta foi a primeira vez que as Nações Unidas divulgaram publicamente os nomes dos candidatos, que foram sabatinados por veículos da imprensa mundial.
“Havia a expectativa nas organizações de direitos humanos de que desta vez teríamos uma mulher no cargo, o que não aconteceu e vai ser importante quando ocorrer”, disse Santoro. “Mas, o grau de transparência desse processo já foi um avanço. O desafio de ter uma mulher liderando a ONU continuará certamente no próximo processo”, declarou.
Para Stuenkel, o próximo secretário-geral precisará ajudar as Nações Unidas a criar uma nova narrativa sobre sua importância no mundo. “É necessário articular uma visão de que a ONU é inclusiva e faz sentido não só para alguns, mas para todos”, disse. “Ele é a pessoa certa para lidar com esse desafio, que é gigantesco”, concluiu.