Dois anos depois do sequestro de mais de 200 meninas nigerianas pelo grupo extremista Boko Haram, o paradeiro delas ainda é desconhecido. Especialistas das Nações Unidas pediram que o governo do país amplie seus esforços para libertar todos os civis sequestrados pelo grupo.

O nigeriano Yola segura fotografia de sua filha mais velha, de 18 anos, e de seu filho de 6 anos, ambos sequestrados pelo grupo Boko Haram durante ataque ao vilarejo em que a família vivia. Foto: UNICEF
Dois anos depois de o Boko Haram ter sequestrado 276 meninas na Nigéria, especialistas em direitos humanos da ONU e da África pediram na terça-feira (12) que o grupo extremista revele imediatamente a localização das vítimas e que o governo da Nigéria aumente seus esforços para libertar todos os civis sequestrados pelo grupo.
“Nos últimos dois anos, apesar das garantias dadas pelo governo nigeriano, os pais não viram nenhum progresso concreto na localização e libertação de suas filhas”, disseram os especialistas. “A falta de acesso à informação aumenta o sofrimento das famílias das meninas sequestradas devido a falsas esperanças e frustrações”, completaram.
Os especialistas das Nações Unidas disseram ainda que, apesar de entenderem a importância de medidas de segurança aplicadas pelas autoridades – que evitam a divulgação de informações sobre o caso -, estão preocupados com o fato de o direito básico das famílias de serem informadas estar sendo ignorado.
De acordo com os especialistas, as autoridades nigerianas precisam designar um ponto focal para se reunir com as famílias e fornecer assistência e informação regular sobre as investigações.
Uma enviada das Nações Unidas para os direitos da criança reiterou na quarta-feira (13) o pedido para que o grupo extremista liberte as meninas sequestradas, completando que a comunidade internacional não pode esquecê-las.
“Não podemos tolerar o sequestro de crianças. Não podemos esquecer as meninas de Chibok”, disse Leila Zerrougui, representante especial do secretário-geral para Crianças e Conflitos Armados. “Cabe a nós ser a voz dos nigerianos e dar a eles a vida que merecem de volta”, completou.
Boko Haram passou a atuar em países vizinhos
Dois anos atrás, no meio da noite, 276 crianças foram sequestradas pelo Boko Haram de um internato em Chibok, nordeste da Nigéria. Cinquenta e sete escaparam horas depois, mas até hoje não se sabe o destino das outras 219.
Nos últimos dois anos, o conflito continuou a crescer e as atividades do Boko Haram espalharam-se para outros países vizinhos como Camarões, Chade e Níger. Mais crianças foram sequestradas, centenas de meninos e meninas foram mortos, mutilados e recrutados.
No que se tornou uma das táticas mais abomináveis do grupo armado, mulheres e crianças, particularmente meninas, foram forçadas a agir em ataques suicidas em mercados lotados e espaços públicos, matando civis.
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o número de crianças envolvidas em ataque suicidas na Nigéria, Camarões, Chade e Níger subiu rapidamente no último ano, de quatro em 2014 para 44 em 2015.
“Sejamos claros: essas crianças são vítimas, não perpetuadoras”, disse Manuel Fontaine, diretor regional da UNICEF para a África Oriental e Ocidental. “Forçar crianças a realizar atos mortíferos tem sido um dos aspectos mais assustadores da violência na Nigéria e nos países vizinhos”.
Em meio a tal cenário, famílias nigerianas decidiram migrar para áreas mais seguras da Nigéria e países da região. Com mais de 2 milhões de pessoas deslocadas, incluindo mais de 1 milhão de crianças – frequentemente separadas de suas famílias -, a ONU descreveu esses deslocamentos massivos como uma das crises mais graves da África.
No ano passado, o governo da Nigéria retomou o controle de parte do nordeste do país e libertou alguns reféns do Boko Haram, incluindo crianças. Na ocasião, meninos e meninas contaram histórias dramáticas sobre a captura, incluindo vilarejos inteiros queimados, além de casos de estupro e violência sexual, entre outras violações.
De acordo com estimativas do UNICEF, existem de 2 mil a 7 mil mulheres e crianças sequestradas no mundo, submetidas a abusos sexuais.