Evento organizado pelas organizações Impact Hub e Migraflix, com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), foi inspirado nos “hackathons”, encontros com 72 horas de debates de ideias inovadoras para solucionar problemas do cotidiano.
A experiência reuniu 13 refugiados e migrantes e 22 brasileiros na sede do Impact Hub, em São Paulo, onde foram criados cinco projetos para melhorar a vida dos que chegam ao país.

Evento em São Paulo reuniu 13 refugiados e migrantes e 22 brasileiros na sede do Impact Hub. Foto: ACNUR
O arquiteto palestino Leon Diab, refugiado no Brasil, e o jornalista Alphonse Nyembo, imigrante da República Democrática do Congo, reuniram-se na semana passada (25) com brasileiros para expor as dificuldades que enfrentam desde o momento que desembarcaram no país.
A barreira do idioma, a ausência de orientações em portos e aeroportos, a pouca oferta de abrigos e hospedarias, o preconceito local à condição de refugiado, os empregos abaixo das qualificações profissionais e a dificuldade de interação com os brasileiros foram obstáculos expostos por eles durante relatos nada confortáveis aos ouvidos de seus colegas brasileiros.
Leon e Alphonse fizeram parte de uma iniciativa da rede de empreendedores Impact Hub e do projeto Migraflix, com apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), para que refugiados e imigrantes encontrasse, com brasileiros, soluções criativas e inovadoras para seus desafios.
Inédita no Brasil, a iniciativa recebeu o nome de “Dream Makers Creatathon: Facilitando Sonhos para Novos Brasileiros” e foi inspirada nos hackathons, os eventos com 72 horas de debates de ideias inovadoras para solucionar problemas do cotidiano.
A experiência do último fim de semana reuniu 13 refugiados e imigrantes e 22 brasileiros na sede do Impact Hub, em São Paulo.
Cinco grupos foram reunidos com a finalidade de desenhar projetos capazes de superar obstáculos de refugiados nas etapas de acolhida, integração e fortalecimento de conexões no Brasil. Os grupos se valeram dos relatos dos refugiados presentes, de palestras do ACNUR e do Migraflix, de conceitos de empreendedorismo e de dados estatísticos para desenvolver ideias e lançá-las ao debate geral.
Os trabalhos resultaram em cinco projetos preliminares, que serão revistos e aperfeiçoados em setembro: plataforma digital para a integração de imigrantes e refugiados; programa de hospedagem temporária e solidária; portal de referência sobre o Brasil e suas condições de formalização de estrangeiros; consultoria para facilitar a contratação de refugiados e imigrantes por empresas; kit com ajuda de transporte, material de higiene pessoal e informações para os recém-chegados.
As propostas tiveram como premissa a independência de ações das três esferas de governo. Cada projeto proposto terá de se tornar viável sem a necessidade de recursos públicos ou autorização governamental.
Nos intervalos, refugiados e imigrantes de Síria, Colômbia, França e Marrocos ofereceram refeições inspiradas na cozinha tradicional de seus países e conversaram com os participantes sobre suas próprias experiências no Brasil. Houve também leitura de poesias e apresentações musicais.
Os dois dias de trabalhos foram acompanhados por Corinne Gray, diretora da Unidade de Inovação do ACNUR, em Genebra. O espírito do Creatathon, ressaltou ela, está em linha com o trabalho do ACNUR e de sua área de inovação.
“Acreditamos que o refugiado, o solicitante de refúgio e o imigrante são os especialistas sobre suas próprias condições de vida e têm de fazer parte da construção das soluções para seus problemas”, afirmou Corinne. “As soluções não estão dentro de nossa organização, mas na comunidade que se beneficiará delas”, completou.
A etapa decisiva do Creatathon, na qual se espera que os debates resultem em produtos e serviços economicamente viáveis, deverá ser em setembro.
Até lá, serão realizados três workshops sobre noções de empreendedorismo, modelagem de negócios e processo de seleção e priorização de ideias. “Esperamos que os grupos formados possam amadurecer até setembro e maturar suas propostas originais”, afirmou Vinícius Feitosa, assistente de Proteção do ACNUR.