“A história não nos absolverá facilmente, mas esse fracasso nos obriga a fazer ainda mais para oferecer ao povo de Alepo nossa solidariedade neste momento”, afirmou Ban Ki-moon durante encontro de emergência no Conselho de Segurança.
“Vimos vídeos chocantes de um corpo queimando na rua após bombardeios aéreos, [o Escritório de Direitos Humanos da ONU] recebeu relatos de civis, incluindo mulheres e crianças, cercados e executados em quatro bairros”, disse Ban.

Criança em uma rua em Alepo. Foto: OCHA / Romenzi
Alepo deve representar o fim da busca pela vitória militar, e não o início de uma campanha militar mais ampla em um país já devastado por mais de cinco anos de guerra.
O alerta é do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, que durante reunião de emergência no Conselho de Segurança na terça-feira (13) convocou o órgão de 15 membros a “fazer tudo o que pudermos para impedir a carnificina” e assegurar que todas as partes em conflito busquem uma resolução política inclusiva.
Em meio à crescente preocupação internacional com a trágica situação em Alepo, Ban disse que durante as últimas 48 horas o mundo assistiu a um colapso quase completo da oposição armada na cidade, que ficou com cerca de 5% de seu território original.
Ban destacou a falta de ação unificada para impedir a carnificina, apesar das numerosas advertências sobre as consequências dessa inação. “Eu disse anteriormente que falhamos coletivamente com o povo da Síria. O Conselho de Segurança não exerceu a sua preeminente responsabilidade no que diz respeito à manutenção da paz e à segurança internacionais.”
“A história não nos absolverá facilmente, mas esse fracasso nos obriga a fazer ainda mais para oferecer ao povo de Alepo nossa solidariedade neste momento”, disse ele.
Ban chamou também a atenção dos membros do Conselho para o forte apelo da Assembleia Geral, que havia pedido uma ação preventiva por parte do Conselho de Segurança em Alepo. Ele acrescentou que, quando havia a oportunidade de agir nos últimos três meses, “este Conselho falhou”.
“Desde setembro, o Conselho de Segurança não adotou três resoluções que poderiam ter permitido uma trégua humanitária, a evacuação de civis e a entrada de ajuda para salvar vidas”, acrescentou.

Em East Ghouta, Damasco Rural, na Síria, um brinquedo de pelúcia nos escombros de um edifício destruído. Crédito: UNICEF/Al Shami
A ONU continua recebendo relatórios de que a morte e ferimento de civis segue em um “ritmo brutal”, disse o secretário-geral, citando relatos específicos de que dezenas de civis foram mortos por bombardeios intensos ou execuções sumárias promovidas por forças pró-governo.
“Vimos vídeos chocantes de um corpo queimando na rua após bombardeios aéreos, [o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos] recebeu relatos de civis, incluindo mulheres e crianças, cercados e executados em quatro bairros”, disse Ban, fazendo eco às declarações do chefe de direitos humanos da ONU, Zeid Ra’ad Al Hussein.
Também na terça, Zeid exortou a comunidade internacional a “prestar atenção aos gritos” das mulheres, homens e crianças que foram aterrorizados e abatidos em Alepo. Ele pediu que sejam tomadas medidas urgentes para garantir que as dezenas de milhares de pessoas que fugiram ou que foram capturadas sejam tratadas em conformidade com o direito internacional.
“O esmagamento de Alepo, este peso imensamente aterrorizante para seu povo, o derramamento de sangue, a matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças, a destruição – e estamos longe do fim desse cruel conflito”, disse Zeid.
“O que pode acontecer a seguir, se a comunidade internacional continuar ‘lavando as mãos’ coletivamente, pode ser muito mais perigoso”, alertou o alto-comissário da ONU para os direitos humanos.
Ainda na semana passada, após fazer uma missão a Alepo, uma funcionária do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) na Síria descreveu “imagens assustadoras” de crianças mortas por morteiros e desnutrição, e disse que a terrível situação continua a piorar.
“Quando eu estava lá, cerca de 100 morteiros caíram no oeste de Alepo em alguns dias […] explosões iluminaram o céu noturno e os sons da guerra reverberaram em toda a cidade”, disse Hannah Singer, representante do UNICEF na Síria.
“Até mesmo para os padrões sírios, os bombardeios recentes foram os mais intensos em Alepo”, acrescentou.