Família síria chega aos EUA após revogação de decreto que suspendia reassentamento de refugiados

Abdel Moein Al Abed, de 37 anos, sua esposa, Fatima, de 31, e os três filhos foram selecionados pelo ACNUR para serem reassentados para os Estados Unidos. A família também foi aprovada pelo governo norte-americano. No mês passado, porém, um decreto suspendeu os programas de transferência de refugiados e quase pôs um fim ao sonho desses sírios. Com revogação, eles puderam começar uma nova vida em território norte-americano.

Abdel Moein Al Abed, sua esposa Fatima, os gêmeos de oito anos, Mohamad e Jomaa, e Shahd, de cinco, preparam-se para deixar Kahlouneye, no Líbano, e viverem em Tampa, na Flórida. Foto: ACNUR/Lisa Abou Khaled

Abdel Moein Al Abed, sua esposa Fatima, os gêmeos de oito anos, Mohamad e Jomaa, e Shahd, de cinco, preparam-se para deixar Kahlouneye, no Líbano, e viverem em Tampa, na Flórida. Foto: ACNUR/Lisa Abou Khaled

Mais de 15 pessoas enchiam a pequena sala de estar em um dia frio de inverno nas montanhas Shouf, no Líbano. Familiares, amigos e vizinhos estavam presentes para dizer adeus à família de refugiados sírios que partiria para uma nova vida nos Estados Unidos.

Alguns riam, outros choravam enquanto Abdel Moein Al Abed, de 37 anos, e sua esposa, Fatima, de 31, entravam e saíam da sala, roubando um beijo ou um abraço de seus entes queridos. O casal ainda tinha que fazer as malas com os filhos gêmeos de oito anos de idade, Mohamad e Jomaa, e a pequena Shahd, que tem cinco.

“Estávamos muito felizes, todos nós. Fiquei mais feliz ainda pelos meus filhos”, disse Abdel Moein, relembrando o momento em que recebeu o telefonema da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) dizendo que sua família estava sendo considerada para o reassentamento nos Estados Unidos. “Eu quero que eles tenham boa educação, um bom futuro.”

Todos se preparavam para recomeçar a vida em Tampa, na Flórida, mas no mês passado, a família se viu impedida de entrar no território americano, como tantos outros refugiados sírios.

“Fui informado de que minha data de partida era no dia 7 de fevereiro. Então, nós nos preparamos e eu pedi demissão do meu trabalho. Arrumamos nossas malas e eu avisei ao proprietário do imóvel que estávamos mudando. Eu vendi a maior parte dos meus utensílios domésticos”, lembra Abdel.

A animação não durou muito. O chefe da família estava assistindo ao noticiário quando ouviu sobre a ordem que interrompia o programa de reassentamento. Pouco depois, ele recebeu o telefonema que temia: a ida da família para os Estados Unidos estava adiada até nova ordem.

“Meu filho Mohamad estava tão animado que às vezes chorava e me perguntava: ‘Quando vamos subir no avião?’, minha filha Shahd também fazia perguntas. Eu não sabia o que dizer. O que eu diria? Que estávamos prestes a viajar e agora não iríamos mais?”, conta Fatima.

Uma semana depois, porém, a esperança da família foi restaurada. “Eles me ligaram novamente no dia 5 de fevereiro e me disseram que agora poderíamos viajar. ‘A proibição foi revogada e agora você pode viajar’, disseram.”

Quem pode ser reassentado

A equipe de campo do ACNUR identifica e encaminha os refugiados mais vulneráveis para o reassentamento, como pessoas que precisam de assistência médica, sobreviventes de tortura e mulheres e crianças em situação de risco.

As verificações iniciais realizadas pelo organismo internacional incluem checagem de documentos e biometria para confirmar a identidade dos requerentes, além de uma avaliação de vulnerabilidade para atestar sua elegibilidade ao reassentamento.

Os candidatos selecionados pelo ACNUR são, então, submetidos a uma triagem detalhada pelas autoridades dos Estados Unidos, que conduzem seus próprios e rigorosos processos de seleção. O governo decidem por conta própria se aceita ou não um refugiado para reassentamento.

O processo pode levar até dois anos e envolve checagens de segurança interagenciais, entrevistas presenciais, verificações de segurança biométricas de antecedentes que utilizam diferentes bancos de dados de organismos do governo federal norte-americano.

Antes de embarcarem para os Estados Unidos, os candidatos aprovados passam por um curso de orientação cultural de cinco dias a fim de prepará-los para a vida em sua nova pátria. A formação aborda questões como escolaridade, saúde e emprego.

Quando chegam ao país, são recebidos por agências locais de reassentamento, que fornecem alojamento e assistência financeira por um período inicial de três a quatro meses, bem como cursos de línguas e auxílio para encontrar trabalho.

Abdel Moein e Fátima sabem que o recomeço será cheio de desafios, mas dizem que estão determinados a se integrarem o mais rapidamente possível à nova comunidade que vai recebê-los. “Tudo será diferente lá. Será difícil no começo, e todos nós precisamos aprender inglês, mas vamos trabalhar duro, e vamos nos adaptar”, disse Abdel.

Fátima tem uma mensagem para os que se preocupam com a vinda de refugiados para suas nações. “Nós fugimos da Síria por causa da guerra e dos problemas lá. Não estamos procurando problemas. Nós só queremos viver em paz e segurança.”

Abdel acrescenta que quer se sentir parte da comunidade e contribuir com as pessoas de lá. “Quero apresentar algo positivo. Quero que as pessoas pensem em mim como um muçulmano que tem algo positivo a dar. Isso ajudará a mudar a percepção que eles têm sobre nós”, completou.

A família já está nos Estados Unidos.